UM OLHAR DEPOIS DA CHUVA


Eu fui criança com navios de papel
Em mares de poças sujas:
Pedaços de barro molhado
Colavam nas solas dos pés.

Eu fui criança, depois da chuva,
Olhando as caras dos curaus
Que acenavam do trem para mim,
Todas as tardes.

Eu fui criança, adolescente,
Quebrando a “três xis” no joelho,
Roubando jangada, atravessando o rio,
Batendo peladas, pulando no açude.

Eu fui criança à porta do Cine Art
E, quando faltava energia elétrica,
Não havia cinema, havia calçadas,
Cheias de gente, contando estórias de Trancoso.

E tudo isso me veio à memória, agora,
Porque a falta que você me faz
Me deixou essa angústia,
Esse sem-jeito eterno de olhar a vida.

Do livro Para Além do Peito Tatuado
Parte> A Infância

 
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