PREFÁCIO
DEUS NÃO FEZ AS MURIÇOCAS PORQUE QUIS
PARA ALÉM DO PEITO TATUADO...Uma
saudade? Saudade de folia? Algum remorso e diversas precisões.
O poeta Joca de Oliveira vem. Agora chega com poemas da vida
inteira até aqui. Agora inteiro, pleno.
Eu, como não tenho falas, vou dizendo como der. Um
poeta que rondou a “noite das metrópoles”,
à cata do seu assunto, que entornou a aguardente da
equivalência na “companhia de lobos” mis,
buscando um sentido; um homem “eternamente só
e triste” (como numa cagada), a fabricar seu poema;
um assim merece os olhos da gente.
Aqui estão as palavras tão caladas nos quartos
de pensões recifenses. Noites assombrosamente longas
e as muriçocas. Deus não as fez porque quis.
Noites “a digerir as sombras e a mim mesmo”. Masturbação
onírica. Noites de gestação e suor. Aqui
estão as partes de tudo o que foi a vida de um poeta
com as suas “descargas cotidianas”. Um que assistiu
às insônias de Raquel, antes do último
vôo. Raquel, pássara de “formosas tetas...”
E que assiste, hoje, a coisas que ainda não caíram
dos seus andares. Ah, o vôo de quem vai morrer, limiares
“que tanto separam as criaturas!” Pudéssemos
mudar algumas fronteiras, abolir alguns referenciais!...
Quando o encontrei, nas residências estudantis do Recife,
eu e Joca fazíamos o mesmo poema, o inconformado. E
Deus completava “a sinfonia com nossos amigos bêbados”.
E recebíamos os “carinhos de anjos famintos”.
E éramos, nós próprios, anjos corrompidos,
lavando “beijos na mesa de um bar”. E, meu amigo,
cusparadas, escarros, também. Atravessamos as prostitutas
da Rio Branco, norte-sul, leste-oeste, sim. Isto foi vivido,
e a cachaça foi vertida. Gonorréia. Bons tempos.
Ribeirão-PE...O batatal da sua aldeia? Bebeu muita
aguardente e jogou muita pelada por lá, o filho de
Dona Amara. Ribeirão “é apenas uma imagem
na parede” a doer, doer. A lembrança da sua aldeia,
o “trabalhar de gente boa”, os banhos de rio,
as primeiras cachaças, os primeiros versos...A gente
só pensa nisso depois. Depois saindo e a mãe
que “piorou de esperar”, de tanto se conformar
com o seu garoto, o poeta Joca de Oliveira. Depois a profissão,
o trabalho, a solidão de concreto, o GRUPO DA VÁRZEA...e
PARA ALÉM DO PEITO TATUADO, “minhas últimas
sementes”.
“Hão de gargalhas as hienas! Hão de rilhar
os dentes!” Sabemos, meu amigo: “esturros de asna”
sempre haverá. Há que se perdoar quantas vezes
for necessário! Mas apenas a um poderoso inimigo subjugado.
Não estamos vacinados e não é preciso.
Precisamos é mover cometas mesmo que para não
encontrarmos versos debaixo. Nós iremos mostrando o
que sabemos fazer, fazendo. E, para quem espera “os
olhares desesperados dos últimos dinossauros”
na nossa face, a postura será a de sempre: com as rédeas
do momento, superior enfim, “como quem mostra uma faca”.
Porque o poeta é para escrever.
A infância não mais. Os banhos de rio, as peladas,
as punhetas no Colégio Agrícola. Os amigos,
têm os que se coisificaram, alguns estão na luta,
e mais, os que o bicho-papão papou. Há um tempo
de se “pedir solidão”, não para
morrer, pulando no Capibaribe, mas para que efloresçam
os brotos da nossa verve! “Poderoso é o desejo
quando” eviscera, quebrando “sementes de todas
as estações”, sobrepondo-se à “contundência
do outono!”
Um poeta só pode escrever. Como guardar tudo o que
passou, o que foi bom, o que não, no bisaco de um peito
tatuado? O poeta só pode escrever. Joca o faz, com
unhas e dentes. A vida de qualquer um é uma trama “toda
original”. É preciso escrever “até
o último sonho” e ainda mais! Joca escreve sobre
a dor de estar só, de ser só. “O fascínio
que a solidão nos causa” não o desencaminha
da consistência, formal, porém fluente. O verso
é triste mas a musicalidade atordoa. E mesmo hoje,
meu amigo, “os trens são raros”, os trens
azuis e venturosos!
O poeta é o sujeito que sempre está nas paradas
e procura guardar a eternidade nos seus momentos. Lá
vem o trem, Joca de Oliveira, despinguelado! Fabrica o teu
poema, entorna o teu cauim e bota o povo para catar araçás
e azeitonas!
Recife, 11 de abril de 2002.
WILSON VIEIRA.