MEU POEMA DE INVERNO

Vi sozinho pela TV os jogos europeus no inverno passado
Após o banho a toalha permanecia molhada
Horas e horas
Suas fitas de vídeo serviram de morada pras formigas
Decerto não gostaram do meu quarto frio e sujo
Uma cigarra invadiu minha sala e namorou uma lâmpada
Minha vassoura quis expulsá-la mas ela voou antes e me perdoou
O noticiário informou que o lixo espacial invadiu a órbita do planeta
Fui ao BINA e ele estava cheio de credores: nenhum sinal de você

Não fui feliz no inverno
Quase nem cheguei à janela
Mas o Sol está vindo aos poucos visitar a praia
Só ontem é que vi o mar: o melhor guia para recomeçar
Uma dúzia de meninos de rua cercou um gringo fotógrafo
Ele passou por um canteiro de bundas mulatas
E foi fotografar uma arraia gigante
Voltei pra casa e no BINA mais credores e nenhum sinal de você

Eu continuei fechado no apartamento
Meu poema de inverno estava sobre a mesa
Havia a lata de leite e um pacote de bolachas
Além de uma fotografia de Catherine Deneuve
A revista CULT e dois livros de poetas novos

Na manhã de hoje, eu permaneci ali, semimorto,
E o verão começava a se abrir.
O Sol pincelava, na moldura da porta,
A sua silhueta de mulher.


Joca de Oliveira

 
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