MEU MUNDO AINDA NÃO CAIU
Minha última namorada no século dezessete
Me deixou como náufrago no deserto
Partiu-me a alma em mil pétalas
E a transformou num imenso quebra-cabeça
Certa noite uma moradora de rua
Encontrou um caco de mim numa esquina
Tomando uma cana e esboçando um sorriso flagelado:
– Foi o amor ou a falta dele? – Perguntou-me.
Um prédio desmoronou enquanto eu dormia na calçada
Era possível o fim mas eu queria que os animais herdassem
a Terra
Um velho mendigo tirou seu casaco e me emprestou:
– É melhor voltar pra sua casa antes que sua
mãe fique aflita!
Enfadonhos carregadores com uma ordem de despejo
Tentavam levar meu sofá e minha alma pro olho da rua
Porém um vizinho que jamais havia trocado uma palavra
comigo
Vendeu meus versos ao guarda da esquina e assim pagou meu
aluguel
Eu pensei que meu mundo fosse povoado de facínoras
Eu pensei que minha família fosse me colocar num asilo
Eu nunca pensei que aquele menor de rua fosse me dar aquele
vale-transporte
Em troca da baga que eu tentava acender na noite fria
Eu nunca pensei...