LÍRIO

Lírio passou dois anos em São Paulo
Quando saiu fugido da cidade
Por suspeita de assassinato.
Bebeu com um caixeiro-viajante
Uma noite toda.
Ao amanhecer, o estranho
Foi encontrado
Com uma bala na testa,
Estirado ao lado da linha férrea.
Nada ficou provado.

Eu esperei que aquele mulherengo,
Boêmio e falastrão, voltasse um dia
Para provar sua inocência.
Mas o homem voltou diferente.
O Lírio parecia fechado.
Andava sempre de casaco.
Alguns amigos o viam constantemente
Só, pelas esquinas da noite interiorana,
Perto da zona ou do bilhar,
Melancólico, arredio e com aquele
Sotaque esquisito do nordestino
Que acaba de chegar do Sudeste.

Não demorou um mês:
E a polícia de outro estado
Veio prendê-lo.

Lírio nunca mais voltou a falar
Comigo: seu amigo de infância.
Guardou para si seu segredo
E sua sentença.

Do livro Para Além do Peito Tatuado
Parte: A Solidão

 
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