ESTRELAS

Escondo-me, à noite, do riso irônico
Do pessoal da esquina
E das palavras indecifráveis
Que passam pela minha porta.

Escondo-me, à noite, dos grafites*
Repetidos nos muros da cidade oculta
E do Chaplin triste, na parede,
Desenhando minha solidão.

Pareço um copo sem vinho.
Há uma paz armada nas guaritas
E uma vida aguada dentro das casas.
As pessoas quase são felizes.

Tento o papel dentro do computador,
E nada. Meu dente cariado dói.
Penso na importância de incomodar
O vizinho por causa de um dente.

Apesar da violência urbana na TV,
Arrisco janelas e portas abertas
E acendo todas as luzes da casa.
Ligo o radinho para disfarçar a dor.

A poderosa solidão que se instala
Me faz pensar em madrugar no centro.
Dou uma volta pela casa, tomo um trago,
E volto para o teclado do computador.

Algumas mortes deixam esse vazio:
Elis, Vinicius, Harrison, Cássia Eller,
Drummond, Chico Science. Algumas mortes
Deixam um frio de arrebentar!

* Grafite é uma palavra feminina. Uma das suas acepções é: frases ou desenhos escritos em muros. Usei a forma coloquial, no masculino, e não a da regra culta.

 

 
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