DEPOIS DAS CINCO

Depois das cinco, tomávamos suco batido,
enquanto os bancos fechavam as portas
para a noite.
Boêmios circulavam ao som
do “Dance & Shake your Tambourine”
e travestis e gigolôs
ocupavam espaços estratégicos
na boate “Chanteclair”.

O bairro do centro do Recife
se enchia de luzes e vigaristas.

Quando as estrelas apareciam
subíamos escadas que fediam a sexo.
Desejos ensejavam disputas
e copos se espatifavam
continuamente
feito balões de festa.

Na frente da boate, garis desinfetavam as ruas
e pré-trombadinhas olhavam sem Colgate
o brilho nos dentes
dos marinheiros que passavam em cardume
por sobre a ponte Maurício de Nassau.
Alguns daqueles meninos
traziam brilho aos pés dos endinheirados,
engraxando sapatos.
Na boate ao lado, dançarinas de pernas e crinas
faziam um jogo de balé e isca.

Era ali, depois das cinco,
que Fátima disfarçava seus excessos
(uma bunda “que benza-te Deus!”)
num vestido brilhoso,
e ainda repetia com um gabarito
de mulher honesta:
– Cuidado, bem, tem muita mulher vigarista
por aí!

Joca de Oliveira

 
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