CONTRADANÇA

Foi péssimo conhecê-lo.
Apresentaram-me.
Aquele olhar simples, seco, cínico.
Aquela boca cheirando a uísque com cerveja.
Aquele jeito manjado de paquerar;
Cigarro chupado com sofreguidão,
Gosto de nicotina nos meus seios.
Não me esquivei a dançar...
Foi desilusão e encanto.

Seus poros suaram minhas vestes
E seus dedos me fecharam como prisão.
A vontade de me afastar não veio.
O cio em rodopios me fez tonta,
Afastando a princesa, a frieza de minha face.
Desejo de chorar, morrer de rir...
Todo corpo bulindo a se trair.

Levou-me pelas ruas de batom,
Beijou-me toda boca de néon.
Passeei pela noite dias inteiros,
Escrevi carnavais fora de fevereiro.
Naufraguei com seu barco em águas bêbadas.
Matei-me. Enterrei-me.
Dei meu coração e me fiz nua, safada, inocente.
Eu dormi no seu leito, suavemente,
Embalada, talvez, no sim ou não...
Menti para mim, sorridente pela vida.
Fui para ele trezentas e tantas concubinas
- doce terra molhada ao duro grão.

Escapou-me, numa noite, como veio.
Deixando-me marcas de dentes
Tatuadas em toda coxa.
Fiquei dilacerada, vaga, mocha.
Murchei minha pétala na planta da cidade.
Os becos, com seus cães,
Meus ouvidos, agora, invadem.
A lua nova, o bar, a saudade em pêlo...
Foi péssimo perdê-lo.


 
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