ASA – 2° LIVRO
(trechos)
Quando escrevo os meus versos
Meu coração fica leve
Como uma folha.
Mas sopra a tempestade
E a folha sofre
O desespero de ser leve.
&
Colhes uma flor sem nome num jardim qualquer,
Numa tarde como as outras
E, no entanto, toda a tua vida se recolhe
Nesse ato humilde,
Todo o teu passado se reflete
Num gesto obscuro,
E se recapitula tudo o que fizeste
Desde os mais remotos tempos em que não existias
Senão no desejo de teus avós,
Quando eras apenas uma forma vagamente possível,
Um voto de amor não formulado ainda,
Talvez nem isto.
Ao colheres uma flor,
A tua vida inteira se refugia nesse gesto.
E é por isto que a flor estremece.
&
Sufocarei se não gritar agora.
Deixa, Senhor, que eu blasfeme
Na danação desta hora.
Preciso ser maldito
Para sentir-me salvo.
Se permitires que eu blasfeme agora,
Verás, Senhor, que essa blasfêmia
É apenas
Um jeito de oração de amor magoado.
&
A natureza, arte de Deus, supremo artifício,
Não a retoques.
Humildemente aceita-a.
Descobre-a em ti, nas coisas, em tudo.
E, se não podes segui-la, ama-a e respeita-a,
Guarda-a no coração, em teu silêncio.
E se lhe fores fiel, mesmo timidamente,
Nela descobrirás, amando-a,
Tua mãe, tua amante
E tua casa.
&
Estrela guia,
Guiai-me!
E, atendendo ao meu pedido,
A estrela guia guiou-me.
Estrela guia,
Salvai-me!
E, atendendo ao meu pedido,
A estrela guia salvou-me.
E, depois, livre e sozinho,
Estrela guia, perdi-me.
&
Levo comigo a cidade, suas ruas, seus becos,
O rio que a corta e onde menino banhei-me,
A igreja matriz, e sua torre, o sino,
E talvez mais que o sino,
O seu som no ar, cantando aos meus ouvidos;
A figura do meu pai, logo chegando, logo
Sumindo,
E minha mãe chorando de amor magoado
E cólera incontida.
Levo comigo minha cidade
Que procuro esquecer, mas cuja lembrança
Me agride e me aparece em sonho,
Como se naquele instante minha mãe dissesse:
“Sempre você, meu filho!”
E na lágrima que choro
Sinto um esquisito gosto
De sal e saudades.
&
Antes de vir a ser o algo que somos
Certos que fomos nada.
E isto me faz humilde
E isto me assombra.
Pois o nada que fui ainda persiste
No que sou. Ele se infere
No que faço e desejo
Como ausência e vazio,
Limitação de minha liberdade
E indefinível tristeza
De não-ser dos caminhos seguidos.
&
Quando abrires as tuas mãos
(faze-o antes que a tarde finde)
Verás que há sangue nelas,
Sangue que as mancha e te mancha,
Homem que te julgas pacífico e inocente,
Quando abrires as mãos no fim da tarde,
Verás que há sangue nelas
E te espantarás porque nada fizeste
Mas há sangue em tuas mãos
Porque nada fizeste.
E em vão te esconderás
Da voz que irá te interpelar em teu silêncio.
Antes que finde a tarde, hás-de ver sangue
Nas tuas mãos de Caim,
Tão limpas e cuidadas.
&
Não sei se poderemos suportar a visão da
Verdade e a face das coisas
Quando cair o último véu que lhes oculta o
Segredo.
Pelo menos se as palavras envolvessem a nudez
Dessas realidades tão duras,
Poderíamos dormir ainda à chegada da noite.
Mas ninguém fechará os olhos à misericórdia
Do sono
Na hora da revelação definitiva.
Ninguém poderá suportar o próprio rosto
Agora visto sozinho e nu, um rosto único e
Implacável
Sem mais olhos e risos a escondê-lo.
Apenas resistirá o rosto verdadeiro
Que se cobriu para sempre
Das obscuras lágrimas
POEMAS – DANIEL LIMA
(CEPE EDITORA) |