ABISMO – 2º LIVRO
(TRECHOS)
As casas correram loucas pela rua afora
Derretidas de luz e de perfumes
E o sol se liquefez em leite e som.
Do céu caiu um jarro de agonias
E do dedo um anjo distraído
Dois pedaços de anéis caíram ao chão.
Realidade, filho meu, é isto.
O resto é ilusão.
&
Estudei muitos livros
(cheguei a ler as “páginas amarelas”)
Li muita filosofia. E romances demais.
Fui Otelo em Veneza,
E em Verona fui Romeu (e até Julieta).
Nas estradas da Espanha
Enlouqueci com Quixote.
Hoje sou Dante
Que se perdeu no inferno,
Sem glória, sem comédia
E sem Virgílio.
&
Para onde vou, eu sei.
Não sei por onde vou.
Ninguém sabe.
Feliz que seja assim
A estrada é a surpresa,
A viagem é o imprevisto e o improviso
E os pés e o coração criam o caminho.
&
Não sou lírico como os portugueses,
Nem épico como os espanhóis.
Sou ligeiramente avacalhado
Como um brasileiro.
Nasci com medo,
Morrerei indeciso.
A definição é meu tormento;
Nem o bem nem o mal,
Morrerei entre.
As patas dos gorilas pisam,
O coração da pátria,
E eu, por trás do muro.
O povo saqueado e corrompido,
E eu, como se fosse um deus,
Nenhum remorso sinto.
E prefiro enganar-me
Acusando o destino
Por minhas omissões e safadezas.
&
De hoje em diante
A alegria é azul, e cinza é a vida,
O tempo é roxo e a tarde cor-de-rosa.
As flores não têm cor,
O mar é rubro, e é amarelo o sonho,
Mas a esperança continua verde.
&
Se não podes iluminar a tua vida,
Acende, pelo menos, teu cigarro.
Talvez que a dor do mundo seja apenas
Um problema banal de posição:
Se te sentares, talvez, o mundo se resolva
E a charada da vida se decifre.
Não te inquietes tanto, que o destino
Se inquieta por ti
E fará de tua vida e tua morte
Um simples e vulgar ponto-de-vista.
&
Eu, pecador, me confesso aos homens de
Meu tempo.
Fiz versos fúteis, olhei a vida de esguelha,
Fiz que não vi, não quis sujar as mãos
Então fiz versos sociais e protestei
Na sala-de-jantar, entre amigos, baixinho,
Retoquei-me no espelho,
Fingi não ver os rostos dos que sofrem,
Fiz altas filosofias sobre a dor do mundo
Fui cisne ornamental de lago parnasiano
E azul.
Resta-me agora o consolo, a vergonha
De pedir perdão aos homens de
Meu tempo,
Eu, pecador confesso e descarado.
&
Este sono de Deus me põe nervoso.
A história cor-de-cinza,
Essas vozes sem som, esse mistério,
Esses risos não-sidos,
O enorme passeio das verdades já mortas,
As falas sem sentido dos homens sem sentido,
As promessas de luz jamais cumpridas...
E Deus dormindo,
Dormindo Deus,
Como um menino abstrato na eternidão do tempo,
À espera de que os homens aconteçam.
Este sono de Deus (ai! este sono!)
E eu sempre esperando que Ele acorde.
E eu sabendo sempre que seu sono
É eterno como Deus sempre dormindo.
POEMAS – DANIEL LIMA
(CEPE EDITORA)
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