MINHA CIDADE

 

Goiás, minha cidade...

Eu sou aquela amorosa

De tuas ruas estreitas,

Curtas,

Indecisas,

Entrando,

Saindo

Uma das outras.

Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.

Eu sou Aninha.

 

Eu sou aquela mulher

Que ficou velha,

Esquecida,

Nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,

Contando estórias,

Fazendo adivinhação.

Cantando teu passado.

Cantando teu futuro.

 

Eu vivo nas tuas igrejas

E sobrados

E telhados

E paredes.

 

Eu sou aquele teu velho muro

Verde de avencas

Onde se debruça

Um antigo jasmineiro,

Cheiroso

Na ruinha pobre e suja.

 

Eu sou estas casas

Encostadas

Cochichando umas com as outras.

Eu sou a ramada

Dessas árvores,

Sem nome e sem valia,

Sem flores e sem frutos,

De que gostam

A gente cansada e os pássaros vadios.

 

Eu sou o caule

Dessas trepadeiras sem classe,

Nascidas na frincha das pedras:

Bravias.

Renitentes.

Indomáveis.

Cortadas.

Maltratadas.

Pisadas.

E renascendo.

 

Eu sou a dureza desses morros,

Revestidos,

Enflorados,

Lascados a machado,

Lanhados, lacerados.

Queimados pelo fogo.

Pastados.

Calcinados

E renascidos.

Minha vida,

Meus sentidos,

Minha estética,

Todas as vibrações

De minha sensibilidade de mulher

Têm, aqui, suas raízes.

 

Eu sou a menina feia

Da ponte da Lapa.

Eu sou Aninha.

 

CORA CORALINA

(Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais)