| OS BICHOS
São sempre infantis, as aves,
Não se pode pensar sua velhice.
Talvez por suas asas, seu canto de amanhecer
A qualquer hora.
Nunca associei às do bando
A que jantávamos. O bando
Sempre parecia completo na alegria.
Não era a mesma coisa
Se morria um boi:
O pasto inteiro entristecia.
Eu inventava pensamentos tristes
Para a vaca se o seu bezerro morria
E punha neste amor algum mistério
Que abria portas ao desconhecido.
Creio que a dor dos animais
Foi minha primeira escola
Sobre a grandeza e a doação da vida.
Aceitei que morressem por mim,
Sua vida pela minha,
Mas nunca vê-los feridos.
Lembro-me do cachorro Otelo,
Guardião de ovelhas, que deu para sangrá-las.
Foi amarrado perto da marrã morta
E começou o castigo.
Minha irmã e eu nos jogamos
Entre ele e o chicote.
Isso foi como ser confirmada em heroísmo.
Éramos assim.
CELINA DE HOLANDA
Fonte: Cadernos da Poesia Pernambucana 2
Edições Pirata – Geração 65
(Págs. 4 e 5).
|