COM OLHOS DE VERDE LONGE

ONDE ERA A INFÂNCIA

O rio foi minha primeira nudez                     
Nos descampados,
Prata, peixe e a pureza reencontrada.

Era sobretudo ao sol, que o ria me atraía,
Em seus caminhos de pedra conduzindo-me
À grande queda-dágua,
Ao perigo, ao vazio atrás das águas,
Mas, havia Chica
Ficando à margem, dando coragem.

Chica não tinha idade, era coisa permanente
Com seus matinês, casacos soltos,
Herança das velhas tias.
Ela apanhava no ar
Qualquer intriga amorosa que passava,
E na cozinha era o comentário:
- Deus permita que eu me engane
Mas essa fia de Nô “está no papo”.
A sua força era o seu acesso à Casa Grande
E suas filhas, filhos e netos
Viviam à sombra de sua glória
Em privar da intimidade dos patrões.

Tinha duas filhas de “vida airada”
Que aos nossos olhos de menina
Era um grande mistério.

Tudo aquilo nos levava ao clima do pecado
E dava um medo pavoroso
De diabinhos, mãe-dáguas e caiporas
Além de um respeito sagrado pelo anjo
Que nos guardava.

A noite, era a roda em torno
Dos contadores de estórias sobre João
O amarelinho e sem medo,
Triunfando pela proteção de fadas-madrinhas
Das intrigas de um diabo disfarçado
Reconhecido pelos pés de pato.            

Estórias mal assombradas do “Poço do Sino”
De cabra que tinha os olhos
De fogo como dois fachos.

Na hora de dormir, vinha o medo
De todos os ruídos,
As sombras do candeeiro, pela parede subindo.

CELINA DE HOLANDA
Fonte: Cadernos da Poesia Pernambucana 2
Edições Pirata – Geração 65
(Págs. 1, 2 e 3)