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Recife, a capital dos mascates
No antigo Mercado do Peixe,
Aquele, de São José, tem peixe, muito peixe.
Navegam sonhos de moquecas e peixadas,
Além de todo dicionário da culinária local,
Nos olhos agudos do povo a examinar nos balcões
Guarajubas, ciobas, cavalas, saramunetes...
O mar.
O mar de coisas e gentes,
Ante o fluxo e refluxo das festas de época
Que orbitam nosso dia-a-dia,
Traz à tona a história das necessidades multicores
De um povo que não aparece nos shoppings da TV
São brebotes do fiteiro, ervas, livros de cordel
Lambe-lambes, paneleiros... E o cheiro das comidas:
Mungunzá, manuê, tapioca, pé-de-moleque
e pamonha,
Mão de vaca, dobradinha, arrumadinho e buchada...
Consumidos pela grande massa humana que deságua
todo dia
Nas ruas, calçadas e becos, igrejas, pátios longevos
Cercanias e portas abertas do Mercado de São José.
E o pregão não para:
Macaxeeeeeeeeeeeeira roooosa,
tinguilinguitinguilinguitinguilinguitinguilingui
Passou o cavaquinho,
cesto pra roupa, espanador de sisal,
Passou o cavaquinho
Fiiiiiit, fiiiiiit, só muito cedo passou o cuzcuz
Depois do almoço e à tardinha, é fácil
ver na periferia
O homem, do japonês. De onde vem esse nome? Não
sei.
Mas quem não conhece aquele doce do tabuleiro
de flandres?
E tem o algodão doce, o amolador de tesoura,
o vendedor de vassoura e espanador de sisal.
“Chora menino, pra ganhar pitomba”
(saudoso Ascenso Ferreira)
E se a festa da Pitomba fosse na praça Chora Menino?...
(Ascenso Ferreira, é assim que se escreve?)
Insistentes peregrinos do labirinto de ruas
Resignados poetas dos incessantes pregões
Remanescentes ascetas e seu acervo de sons.
Tabuleiros, carroceiros, o passa-passa de gente
O passa-passa de gente que chega de todo lado.
É tanta mercadoria que essa gente morena traz...
Desabrochar de sementes em pleno meio de rua,
Labores de sol e de chuva.
De fruta, verdura e tempero a planta pra fazer chá.
Feijão de corda brejeiro, farinha não faltará.
Você sabe do que eu falo? É da feira popular!
A feira que é dos ricos no sábado pela manhã
No domingo à tarde é dos pobres,
Essa feira de mangaio que abastece a qualquer um,
Que a democracia do povo que não usa terno
e gravata
É a única que não falha,
Onde a comida não falta e não há desperdício
algum.
Pois o que sobra é do chiqueiro e nem precisa de dinheiro
pra comer que se lhe baste.
Pois no Recife, a capital dos mascates,
Só na sexta-feira santa o pobre pensa em jejum.
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