REDE

Labuto muito, bastante canso,
O corpo curva e me abato.
Garganta seca, seco o regato,
Distante fica o meu remanso.
Ao sol, sem sombra e sem abano,
Perto o deserto, afastado o mar.
Nada como uma rede de pano
E um pé pra embalar.

À noite, é bom descansar quieto.
Que o sono seja um calmo lago.
Se ao corpo devo e não tenho pago,
No frio, às folhas, me aboleto.
O dia nasce: o dia e o dano.
Prum cão sem dono, sempre a vagar,
Nada como uma rede de pano
E um pé pra embalar.

Perdida a paz, esqueci da rota.
Meus pés perderam pele e planta.
Pra tudo aquilo que desencanta,
Por ter que ter o que esgota,
Se o dia é duro e desumano,
É bom um canto onde se abrigar:
Nada como uma rede de pano
E um pé pra embalar.

Eu peso a casa, dentro de uma rede.
Eu penso em água, e a sede em dobro.
Alcanço um rio, mas um rio salobro...
Um rio assim não vence a sede.
Ante o que há de mais insano,
Perante deus, se deus contestar,
Nada como uma rede de pano
E um pé pra embalar.