ORDENHADOR DE SEIXOS

ordenhador de seixos,
lapido o que não há
lapidar,
a gema abstrata.

ordenhador de seixos,
dou formas,
ao pôr em fôrmas
(que, de qualquer forma
são fôrmas impalpáveis),
à argila imaginária.

do branco do papel
ao branco do deserto,
imagens mortas, mortas
de mortos mortos, mortos
carne ganham, ganham
corpo,
se arranjam no espaço.
vento pedem/pé-de-vento:
na relva seca, seca,
gravetos a gravitar.

ordenhador de seixos,
virago virgem, virgem,
nunca engravidada,
abro minhas hastes
num parto impassível,
dou à luz a luz, vagindo o arco-íris.

BUARQUE NETO
FONTE: do livreto MANDEMIDAS
(Poema musicado por Evaldo Dantas)