PÉS DE GALINHA

Passei a infância toda
Achando que a minha mãe
Gostava de pés de galinha.
Comia com tanto gosto,
Chupava até os ossinhos.
“Ninguém come os pés, são meus” – dizia.
Toda a carne dividia:
Peito, coxas e titela,
Fígado, coração e moela,
Mas os pés, os pés eram só para ela.
Depois de todos servidos,
Então sentava e os comia.
Mas o tempo foi passando,
A criançada foi crescendo,
Os maiores trabalhando,
A vida foi melhorando.
Depois de uma vida dura,
Começamos ter fartura.
Vi minha mãe na cozinha
Tratando de uma galinha
E ao contrário de outrora
Flagrei aquela velhinha
Jogando os pezinhos fora.
Ao notar o meu espanto
Aquele coração santo
Da minha doce mãezinha
Apressou-se em explicar:
“Nunca gostei do tal pé de galinha.
É que a carne era tão pouca,
Pra tantas bocas não dava,
E pra você não ficar triste
Eu fingia que gostava”.

BERNARDO ALVES
Fonte: (POESIA DESCALÇA Nº. 85)