OMISSÃO


Se vendo os meus olhos
Se faço que não estou vendo
Eu me vendo, cara !

 

AS VAIAS SOBRE O CAJU

   Quando ouvi as primeiras vaias no PAN – endereçadas ao Presidente Lula – eu ainda estava emocionado com a abertura dos jogos. A entrada do Cordel do Fogo Encantado rodeado de centenas de artistas, palhaços, saltimbancos, havia sido apoteótica. A vaia para mim veio em descompasso...  Pensei ser coisa de “democratas” sulistas aproveitando, por um lado, a crise aérea + tragédia do avião da TAM, vinculando-as diretamente ao governo atual, e, por outro, o “ufano-bairrismo” de alguns cariocas que estavam vendo os jogos como uma coisa só deles e não de um país inteiro. Teve nego que disse: “podemos organizar as coisas independentemente do auxílio do governo”. Vamos devagar, gente, esse ideal anarquista ainda está longe de ser alcançado pelo “mundo civilizado” E teve outra: “Apesar da crise, mostramos que somos capazes”. Meu bem, até traficante parou para ver os jogos. Quem não queria ajudar? Quem não torceu pelo sucesso dos Jogos? Tudo era favorável. Como diria o filósofo do Residencial Boa Viagem, Van das Negas: “Cavalo carregado de mel até o rabo vai doce”. Até o Presidente ajudou, não sabiam?...

     Mas não estou aqui como advogado de defesa do Presidente. Queria me ater às vaias. Imediatamente me veio à memória gente que suportou vaias com certo brio. Nem vou falar do Oswald de Andrade e o pessoal de 22. Tampouco de Caetano e os Tropicalistas. Não vou lembrar dos festivais (Sérgio Ricardo chegou a quebrar um violão e o lançou na platéia. Estava defendendo a música Beto Bom de Bola).  Minha lembrança é o astro do meu querido Botafogo, Paulo César Caju. Numa disputa pela antiga Taça Rocca, com a nossa arqui-rival, a Argentina, recordo que o Brasil perdia de 2x1 (não me lembro o tempo de jogo nem a data do acontecimento) e precisava do empate para ganhar o título.  Mais de sessenta mil pessoas vaiavam cada vez que Caju pegava na bola. A vaia era tão ensurdecedora que irritava até telespectador. Então, lá pelos meados do segundo tempo, Tostão pega a bola pela lateral do campo e, com o talento que Deus lhe deu, lança da área do escanteio, na medida, entre dois zagueiros adversários. Paulo César, no meio dos zagueiros hermanos, deu uma sutil “matada” no peito, e foi com tanto nojo (como a gente costuma chamar aqui nas peladas), que a bola caiu mansamente entre ele e o coitado do goleiro, postado três metros à sua frente. Um pipoco indefensável calou momentaneamente o estádio, enquanto PC corria pra essa mesma torcida que antes o vaiava, mostrando e beijando o escudo da seleção canarinha. Brasil, campeão da Taça Rocca daquele ano! Que jogador, o Paulo César Caju!
  
     O poeta gorducho, Joca, me contou que nunca teve gabarito para uma vaia: “Sou pequenino ainda. Um poeta menor. Quando muito, uma gracinha, um muxoxo, risadinhas atrás das cortinas, uma gargalhada solta no meio da sala durante um poema. É bem pior do que uma estrondosa vaia!...Você corre o risco de localizar o “malfeitor” e partir para as vias de fato”, confessou.
   
     Termino dizendo o seguinte: independente de merecida ou não, que a vaia dá uma vontade danada de mandar um bananão para o “povo”, para uma platéia, para a torcida, ah, isso dá!... Porque ninguém é de ferro!  Não é mesmo, Dodô?

BALAU (agosto de 2007)