SONETO II
A meu pai morto

Madrugada de Treze de Janeiro
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o!” deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas “floreas”*
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!


AUGUSTO DOS ANJOS
EU E OUTRAS POESIAS

* na 27ª edição, BEDESCHI, Rio de Janeiro.
com prefácio de Antônio Torres (novembro de 1914),
está escrito, em português antigo, “floreas”.