SONETO AO ADORMECIDO

Como não te sorrir, ó adormecido,
E como não chorar sobre nós mesmos!
Como não se alegrar ao contemplar-te,
E não entristecer em nós pensando?

Como não perceber que a vida impura
Se conservou de ti, distante e ausente
E em nós vingou seus ásperos desejos,
Seus caprichos terríveis e suas mágoas?

Como não te sorrir, morto e inocente
Cansado de brincar, se estás liberto
Do destino de ter nosso destino?

Como não se alegrar com tua sorte,
Se nunca hás de chorar sobre ti mesmo,
Sobre a tua inocência e teus brinquedos?

Fonte: ANTOLOGIA ESCOLAR BRASILEIRA, Rio de janeiro, 1967
Livro, MAR DESCONHECIDO, 1942