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A PARTIDA
Quero morrer de noite –
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.
Quero morrer de noite.
Irei me separando aos poucos,
Me desligando devagar.
A luz das velas moldará meu rosto lívido.
Quero morrer de noite –
As janelas abertas.
Tuas mãos chegarão água aos meus lábios.
Os que virão, os que ainda não conheço,
Estarão em silêncio,
Os olhos postos em mim.
Quero morrer de noite –
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.
Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala.
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará o dormitório.
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...
Quero morrer de noite –
As janelas abertas.
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de
tudo.
E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais volverei,
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.
Fonte: ANTOLOGIA ESCOLAR BRASILEIRA – MEC
(Navio Perdido). Rio de Janeiro, 1967
Obs. A obra Navio Perdido é de 1929.
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