NOTURNO
Sozinho, de noite,
Nas ruas desertas
Do velho Recife
Que atrás do arruado
Moderno ficou...
Criança de novo
Eu sinto que sou:
- Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?
O rio soturno
Tremendo de frio,
Com os dentes batendo
Nas pedras do cais,
Tomado de susto
Sem poder falar...
O rio tem coisas
Para me contar:
- Corre, senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!
Das casas fechadas
E mal-assombradas
Com as caras tisnadas
Que o incêndio queimou
Pelas janelas esburacadas
Eu sinto, tremendo,
Que um olho de fogo
Medonho me olhou:
- Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!
Dos brutos guindastes
De vultos enormes
Ainda maiores
Nessa escuridão...
Os braços de ferro,
Pesados e longos,
Parecem quererem
Suster-me do chão!
- Ai! Eu tenho medo dos guindastes
Por causa daquele bicão!
Sozinho, de noite,
Nas ruas desertas
Do velho Recife
Que atrás do arruado
Moderno ficou...
Criança de novo
Eu sinto que sou:
- Larga de ser vagabundo, Ascenso!
FONTE: Poemas de Ascenso Ferreira (CANA CAIANA)
NORDESTAL EDITORA
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