COMENTÁRIOS.
Meu primeiro contato com os versos de Ascenso Ferreira foi numa
sala de aula do curso primário, em Ribeirão/PE,
minha terra. A professora de Português era a saudosa Dona
Nelita. Nelita Lopes. Me convocou para uma leitura em classe:
um verdadeiro castigo para alunos tímidos como eu. O
poema era Os Engenhos de Minha Terra, que começava assim:
Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar:
- Esperança!
- Estrela-d’Alva!
- Flor do Bosque!
- Bom Mirar!...
Apesar de nervoso e suado, consegui me sair bem.
Mais tarde, já na universidade, voltei a me encontrar
com Ascensão. Eu já escrevia alguns versos. E,
numa mesa de bar, com o poeta e artista plástico, Ivan
Marinho, ele me declamou o poema Palhaço. Era um poema
da fase em que Ascenso fazia sonetos, a chamada fase parnasiana
do poeta, como dizem alguns. E esse poema me encantou tanto,
tanto, que o considerei como o maior poema que Ascenso Ferreira
escreveu. A intensa ironia e desencanto desses versos tristes,
ainda hoje me comovem: “Meu coração virou
palhaço / de tudo a rir!...De tudo a rir!.../ O sofrimento
tornou-o de aço/ e assim vai ele, pobre palhaço,
/ de tudo a rir!...De tudo a rir!...”
Ascenso nasceu no dia 9 de maio de 1895, na cidade de Palmares,
interior de Pernambuco. Em 1995, houve uma programação
cultural para comemorar o Centenário de Nascimento de
Ascenso Ferreira. Nesse ano, o também poeta de Palmares
e editor, Juareiz Correya, me convidou para um recital na Sete
de Setembro, defronte da extinta Livro 7, fechando as comemorações
do centenário do poeta. E, me recordo bem da noite festiva,
logo após algumas apresentações de teatro
e música, o poema que declamei foi Palhaço, exaustivamente
decorado, porém, tive que tirar o papel do bolso, pois,
bastante emocionado, poderia esquecer um ou outro verso durante
a apresentação. Depois, quase nem ouvi os aplausos
e cumprimentos, tão grande era a emoção.
Alguns amigos me acham parecido com Ascenso: o corpo físico.
O corpo espiritual,
Ascenso já ascendeu a quilômetros-luz na poesia,
enquanto que eu ainda estou engatinhando, ainda mamando no peito
das musas!... Um dia, em frente à Livraria Cultura, mandei
um amigo tirar uma foto minha perto da estátua do poeta,
e, ao pegar a câmera digital, eu quase caí de costas.
A semelhança era incrível.
Mas, voltemos ao poeta. Ascenso na fase modernista é
tão original, que só ele se parece com ele mesmo.
O verso livre, com ele, se manifestou, deu piruetas, cambalhotas,
brincou bumba-meu-boi, reisado, pião, cambinda, festa
de carnaval, São João, dançou Xangô.
Verso solto da mulesta!... Depois, mais misticismo e assombração.
Sobrados em Recife, casas-grandes nas usinas entraram no seu
poetar... E o Trem de Alagoas passou virado: - Vou danado pra
Catende.... O verso numa velocidade espantosa! Daí, muitos
concordam, a poesia modernista, com Ascenso, chegou a um patamar
nunca esperado, surpreendendo até Mário de Andrade,
conforme eu li.
Por isso, Capitão Ascenso Ferreira, termino dizendo:
quisera ter a semelhança de verve e não só
física, de ter a força poética e a alegria
que você tem, embora alguns versos seus sejam tristes.
Mas por aqui eu vou lendo e aprendendo, com humildade, com prazer..
E sempre quando posso, carrego um livro seu debaixo do braço
para mostrar ao mundo, porque sua poesia é grandiosa
e digna de louvor.
JOCA DE OLIVEIRA
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