PASSAPORTE

Secretários do Governo
Das alfândegas escuras
No fim dos vestíbulos
Dos aeroportos abotoados
De sistema e segurança
Das rodoviárias gasosas
De fumo e diesel
Venho de sobretudo e casaco
Já vestido de estações
Nenhuma pistola no bolso
Além do cancerígeno cigarro
Do conhaque e o fósforo
Para acender o tempo
Trago também um binóculo
No lugar do trancelim
O livro de bom volume
É do americano Neruda
Para a minha cabeceira
De riscos e insônias
Por não saber do destino
O meu passaporte vem assim
Como a carteira do trabalho
Cheirando a bojos e porões
E campos e cidades