| CLARINHA
Acompanhei a sua roupa crescendo no varal. Do meu quintal eu
assistia a esse espetáculo sob o sol e ventos. A anágua
azul e a calcinha de renda e flores bordando setembro e a primavera.
Do seu quintal ela olhando para mim com a indiferença
de ontem. A menina crescendo não sabia que eu escrevia
poemas para ela e os guardava dentro de livros com pétalas
de rosas vermelhas.
Capítulo Dois
A menina se fez moça e a roupa diminuiu no espaço
do corpo. A blusinha curta mostrando o umbigo vertical com a
covinha. Não vi mais anáguas azuis no varal. A
sainha ou o vestido no meio das coxas róseas. Clarinha
já tinha abolido o sutiã e o decote desceu oferecendo,
pretensamente, o delta dos seios. Um dia a surpresa foi tamanha
e invadiu-me o peito: fui convidado de palavra para o seu aniversário
de quinze anos. Senti o seu hálito tão perto que
me subiu um calor no rosto que ela deve ter notado na minha
emoção tímida. Prometi ir à festa
e fui comprar uma camisa de cetim e um sapato social. Na festa
(sem champanha) e de poucas pessoas Clarinha confessou sua paixão
por mim desde os nove anos. A paixão chegava a sonhos
e desejos perturbáveis. Ao pecado consentido. Disse.
Mas Clarinha eu tenho exatamente quarenta anos. Vinte e cinco
mais da sua idade. Disse-lhe. Para mim você é jovem
e tão latente como o Sol nascente. Respondeu-lhe com
metáfora.
Capítulo três
Quando nos casamos no mesmo ano (sem véu e grinaldas)
a festa foi simples como a festa dos seus quinze anos. Clarinha
não acompanhou minha idade avançando. Aos trinta
anos ela ficou a balzaquiana mais bela do mundo e eu cinqüentão
acometido de fortes dores na uretra. Tive de um dia submeter-me
a uma inadiável cirurgia (que me impediu de fazer um
filho em Clarinha) na impotencialidade sexual. Então
o urologista arrancou-me a castanha da próstata deixando
lá no fundo da bexiga um câncer me matando de sofrimentos.
Clarinha escusando-se dos meus tratos e asseios. Esquecendo
o meu remédio na farmácia. Hoje acompanho com
resignação e tristeza ela tendo filhos com o jardineiro.
Pago muito bem o rapaz para ele trazer rosas vermelhas e fazer
Clarinha feliz. Satisfeita.
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