HABITAÇÃO DA AUSÊNCIA

O júbilo de ontem, a tristeza de hoje
Os cenários que atravessamos felizes.
Um recanto do mar, um pedaço de céu
Que pousaram em nosso olhar.
Uma conversa perdida no tempo
E relembrada num brinde amigo
Em qualquer desvão da nossa memória.

Pássaros que cantaram, e hoje não cantam mais:
Papai a beijar os meus cabelos
O clarinete do meu tio ecoando
Nas salas da minha infância.
Minha mãe ora a sorrir, ora a chorar
E o seu rosto indecifrável a dançar-me nos olhos.
Tudo que foi passado e se me fez presente
Em minha avó com seus olhos azuis.

Ah! somos feitos de ausência. Dela somos vestidos
E é sua boca que nos fala. Apenas somos sopros.
Toda presença não passa de um sinal de ausência.
A ausência - e só a ausência - habita em nós.

ÂNGELO MONTEIRO
(Todas as Coisas têm Língua)