ANA CRISTINA
CÉSAR – OUTONO
Queimação estomacal. Numa manhã as
folhas despencavam e do décimo
primeiro andar, um vento uivante tocava
o sino da varanda. O longínquo barulho
de buzinas, o lixo matinal na porta
da cozinha. Esquecera de fechar as
gavetas e recolher as flores murchas do
vaso. Era como se um bluesman
cantasse dentro dela, folheando vinte
vezes o livro dos dias.
Procura pastilhas de magnésia dentro de
uma cômoda e força o corpo para sentir
vontade de dar uma última volta nos
quarteirões do bairro. Down on me.
Querido, não posso continuar, a nova
sensação do vazio, o grito ensurdecedor
e azul de Janis Joplin. All is loneliness here
for me. Olhou-se no espelho pela última
vez. Foi à varanda, espiou o tempo e a
queda nove segundos. Dor durante uma
pequena eternidade. “You’re innocent
when you dream”
ALINE ANDRADE
(Coletânea Poética - Marginal Recife 3)
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