COMENTÁRIOS
Para toda a boemia literária da minha época, dizendo melhor, da minha convivência, o poeta ALBERTO DA CUNHA MELO era uma unanimidade. Para aqueles que o conheciam pessoalmente e, também, para aqueles que o conheciam tão somente dos livros, como eu. Poeta expressivo, sensível, daqueles que você passa a admirar na primeira leitura. Dele, nunca me aproximei, apesar dos convites de alguns (poucos convites). Um pouco pela minha timidez e mais pelo fato de ainda engatinhar na poesia àquela época. Era um aprendiz e acho que continuo aprendiz. Mostrar versos meus, então, nem pensar. Depois, muito tempo depois, eu soube que ele era tímido também. Mas Alberto, desde que cheguei a Recife e comecei frequentar os ambientes onde circulavam os poetas da minha geração (deixei muitos cacos de minha alma na Rua do Hospício e no Beco da Fome) já era para mim um poeta consagrado, apesar de eu só ter na memória o poema RELÓGIO DE PONTO como referência. E poeta consagrado é feito mulher muito bonita para o introvertido: você, de tanto adiar o encontro, termina sem conhecer, sem se aproximar, passando a admirar somente de longe.
Num recital dos poetas chamados alternativos, na cidade do Cabo de Santo Agostinho, quando Ivan Marinho, poeta e artista plástico, era Secretário de Cultura do Município, Alberto da Cunha Melo foi um dos homenageados da noite, e lá eu pude notar que o grande poeta - que todos enalteciam - era uma pessoa simples. E isso me causou uma maior admiração. Porém, como das outras vezes, ele se encontrava cercado de muita gente, e assim, eu deixei para outra oportunidade uma aproximação; oportunidade que nunca veio porque também eu nunca busquei.
Poemas Anteriores foi o primeiro livro que comprei de Alberto e O Cão de Olhos Amarelos, o último. Alberto faleceu em 2007. As pessoas costumam comentar que, na morte de um grande poeta, a literatura perde. Acho que a poesia, por outro lado, ganha um legado extraordinário. Num mundo cada vez mais competitivo, onde a busca de dinheiro, títulos e posições a qualquer preço faz escolas, a poesia de Alberto marca pelo seu espírito livre, pela indignação diante das injustiças, pela angústia profunda de grande parte dos seus versos. Também por certo lirismo, no seu carinho pelas pessoas e no amor que ele depositava pela humanidade. Tenho, hoje, vários livros do poeta e estou sempre a lê-los, em parte para apreciar a excelente poesia do mestre, em outra, para aprender com o mesmo o delinear de versos tão maduros. Alberto é aquele poeta cujo escrever, entre o simples e o sofisticado, faz diferentes adeptos e cuja linguagem, os mais novos, com entusiasmo, tentam abraçar.
JOCA DE OLIVEIRA/09 de julho de 2011 |