O SOPRO INVISÍVEL

Eu também canto versos, Neruda,
Enquanto que ele perscruta na noite: apache.
Acusa, e diz que acuso;
Sofisma, e diz que sofismo.
Adula o administrador como um cão
E vaga a caçar estrelas no céu noturno.
Toda a Via-Láctea conspira, diz ele,
E o autor intelectual do roubo do fogo
Não foi Prometeu,
Fui eu.
Move todos os deuses contra mim
E diz que me escondo no asteróide de Caim.

Um negro suor escorre da face do Universo
E indefinidos demônios desatam a rir.
O espelho da Lua se parte
E o meu rosto fica irregular.
Iludo-me; talvez não me reconheçam!
Misturo maremotos, sons de besouros celestes
E explosões estelares à minha voz,
Porém, milhões de computadores focalizam-me
Através de radares.
Não é a espada de Dâmocles, por certo,
Que corta, de vez, a minha jugular...
Meu olhar não consegue mais refletir,
Cambaleio e calo-me.

No piche da noite, o meu espírito respira aliviado
Sobre as cordilheiras...
- Hoje mesmo estarás comigo. – Responde Neruda.

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