POESIA DESCALÇA



Minha poesia
Nunca subiu degraus de editoras
Nem conheceu academias.
Ficou descalça,
Do lado de fora,
Sem sapato, sem meia,
Sem terno e gravata,
E sem caneta-tinteiro.
Minha poesia
Passeou pelos subúrbios
De ruelas esquecidas,de bares escondidos,
De pracinhas quase desertas.
De dia, nas ruas,
Metia-se entre ônibus e gente,
Como os moleques que sentem fome
E roubam maçãs dos tabuleiros,
Pra depois apanharem da polícia.
Pra sobreviver,
Utilizou as canetas dos cambistas,
Dos garçons, dos caixeiros-viajantes,
E a astúcia das ratazanas de esgoto
Que suportam a sarjeta;
Superou o fedor da noite suja
Com o faro de vira –latas,
Com uma resistência de baratas.
Domou o frio,
Engoliu a fome
E vomitou tédio e solidão.
Viu o capitalismo comunicar suas letras
E vender seus símbolos,
Captados em antenas parabólicas.
Das catacumbas e subterrâneos,
Como fantasma vadio,
Saiu e visitou os corações dos desesperados,
Dos solitários,
Dos mendigos, dos bêbados e prostitutas,
Com uma voz que ora geme de tanta dor,
Que ora grita de tanta revolta.
E, pelos canais da cidade,
Pelas pontes desertas,
Pelos prostíbulos perdidos,
Ela se fez canção...
Uma canção captada pelos satélites
Russos e americanos
Que vagavam no mundo infinito

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