O CÉU AVERMELHA-SE ANTES DE SE TORNAR
AZUL
Três e meia da madrugada:
Homens dormem...
Milhões de pardais cantam, anunciando um amanhã.
De vez em quando,
Um galo responde e tudo fica tão belo,
Tão musical, compondo um instante singelo.
Acordei de ressaca
Como se tivesse despertado de um pesadelo.
A madrugada e o silêncio dela renovam minhas forças.
Bonitos sons compõem este silêncio:
Sons da natureza; eu sou natureza,
E nunca me senti tão ela como hoje.
Acendo o Belmont
Amassado pelo meu velho colchão,
E a fumaça começa a penetrar pelos labirintos
do meu peito.
A brasa incendeia meu ser material,
Mas, ele nada sente: sou totalmente espírito.
Algum marginal ataca;
Prostitutas são vendidas;
Travestis passeiam com medo.
Os autos passam velozmente,
Enquanto eu cuspo o amargor da cachaça de ontem.
Tente acordar os homens neste instante,
Antes que o sol apareça
E tudo recomece novamente.
Antes que as máquinas e as buzinas nos enlouqueçam.
Acordem, homens!
Cantem, pardais!
Respondam, galos!
... O céu avermelha-se antes de se tornar azul.
JOCA DE OLIVEIRA
Poema do livro Os Últimos Pássaros da Cidade
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