ASCENDENTE


Minha avó era descendente de índios.
Era uma cabocla
De cabelos grandes, negros e lisos;
Vinham até aos limites das nádegas.
Usava marrafa para prendê-los
Das brincadeiras do vento.
Minha avó.
Mulher não muito acostumada
Às coisas da cidade, da “modernagem”.
Vivia presa às crendices, às superstições
E à lembrança da pequenina aldeia de pescadores
De sua infância.

Minha avó era rezadeira.
O galho de pinhão brandido no ar
Afastava mau-olhado, peito aberto,
Quebranto e outras mazelas.
Ela adorava um chá
E detestava médicos.
Médico era sinal de morte rondando,
De dor, de mais sofrimento —
Nunca de alívio.

Minha avó nunca precisou de médico.
Era tímida, fechada, de guardar feridas.
Vovó era estrita submissão:
Não reclamava, não discutia, não falava alto,
Nem ofendia, nem maltratava.
Acalmava espíritos.
Ainda me lembro do seu cafuné
Para curar dores de cabeça e insônia.
Era um santo remédio.

Havia também um monte de brincadeiras
Que ela nos ensinava:
“Escravos de Jó jogavam caxangá.
Tira, bota, deixa o Zabelê ficar.
Guerreiros com guerreiros
Fazem zigue-zigue-zá”.

Vovó foi trazida para a cidade,
Mas parecia que ainda continuava vivendo numa tribo.
Pura, isolada da grande luta urbana
Que havia ao seu redor.
— É o fim do mundo, meu filho — repetia como uma índia
Catequizada.
— É o fim do mundo, vó, sem você!

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