| UM POBRE
ATOR
Fui caminhando pela vida afora.
Parei na Catedral da Justiça
E vi os tribunais –
E os tribunais me pareceram teatrais.
Fui mais adiante,
E encontrei outra catedral,
E entrei.
Havia um casamento –
E os casamentos também tinham
Um aspecto de teatro,
Uma representação do amor.
Eu queria ver a vida e todas as coisas.
Freqüentei as rodas sociais:
Todos os gestos, todos os artifícios,
Todas as poses. Tudo era teatro.
Eu não desisti. Vi o jogo de interesses,
Vi o jogo do poder e os políticos.
E a política também me pareceu teatral.
Vi processos, procissões, velórios,
Ritos, amizades, guerras, vida enfim,
Tudo, tudo era teatro.
Às vezes, absurdo; às vezes, comédia e,
Quase sempre, tragédias.
Descobri que o mundo é um teatro,
Que a vida é um teatro,
E que eu sou um ator pobre,
Muito pobre.
JOCA DE OLIVEIRA,
Recife, julho de 1986
(escadarias da Faculdade de Direito de Recife)
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