NIRVANGA

As folhas que caem,
Todos os dias,
Sobre o chão do meu terraço,
Arrastadas pelo vento,
Enfeitam deliciosamente a Vida
Com o gosto natural
Das coisas simples.

Confetes de Deus comemorando
O mudar contínuo das estações,
O ressuscitar dos vivos,
A paz encantada do mar em murmúrio,
O canto dos galos e pássaros
E o sinuoso andar do vento
Através das folhas.

As folhas caem
Como pequenos Ícaros
Neste começo de manhã.
Os pássaros mais velhos
Acordam os mais novos
Com antigas canções,
Enquanto os pequenos
Ensaiam ritmos dissonantes.

Duas rãs pequeninas
Continuam agarradas como Ninfas,
Desde que a noite começou,
E me ensinam novas lições de Amor.
Carregam sobre si mesmas
A volúpia incessante
E a proteção de Vênus.
Sou apenas um Fauno gigantesco
Em extremada solidão.

Plantas flosculosas
Começam, em seguida,
A nos devolver
Do mais puro oxigênio
Ao mais refinado perfume.
Alguma Diana, cansada das caças,
Deve ter dormido solitária, também,
Desejosa de ser,
Sequiosa de ser,
Amorosa em ser caçada.

Passeio o olhar
Pelos muros das mansões olímpicas,
Porém, não preciso roubar o fogo do céu
Para ser feliz,
Para compreender as coisas.
As coisas sagradas vêm, naturalmente,
Aos gentios, certas horas,
Numa doce epifania.
Subo tão-somente o olhar
Para o céu azul.

Contudo, serei sempre
Um “Prometeu Acorrentado”
Às coisas materiais.
Estou com a ereção matinal
De um Hércules
E o espírito para a ventura
De um Ulisses.
Mas, de repente,
O cruel despertador dispara
E acaba me tirando do êxtase...

...É a partir daí que eu começo a perceber
O barulho dos automóveis,
O chacoalhar de meros mortais
Dentro dos ônibus que passam pela avenida,
O grito do jornaleiro,
Os clientes da padaria, em alvoroço,
Pelo pãozinho mais quente,
O sino do homem do mungunzá.

E o Nirvanga,
Do qual eu havia despertado,
Me devolve à realidade do trabalho,
E eu sinto a dor e a esperança de ser,
Tão-somente, simplesmente, um SÍSIFO.

JOCA DE OLIVEIRA
(Praia do Janga, 20 de agosto de 1992.)


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