| DE MIM
É a respeito das flores
Que não vou falar.
Elas estão em toda parte,
Submissas ao corte,
Toque das mãos...
Segregando fumaças,
Induzidas ao tóxico.
Também não falarei de cidades:
Acostamentos interditados,
Telas, tanques, guindastes, fábricas,
Rotas (algumas suicidas),
Revista pornô, hepatite etílica,
O tumulto das ruas, das praias,
Carros engradados nas avenidas,
Pássaros nas praças, homens em gaiolas,
“Sorrisos metálicos”, noites sem saída.
As cidades estão nos roteiros,
Nos itinerários dos guias:
Encontramos em qualquer banca.
Dos outros autores, dos outros livros,
De que falarei?
Pertencem às bibliotecas, às livrarias,
Aos críticos.
Estão nos sebos, nas conversas
Dos semi-intelectuais da Rua do Hospício.
Olho para minha prateleira e lá está:
Joyce enganchado com Patativa!
Hoje falarei tão-somente
Daquela treva escondida
No mais remoto de mim.
Do lugar mais escuro e sagrado
De minha alma quero falar.
Lá onde me é sofrida a visitação.
Desse lugar escondido,
Quase sempre volto encolhido
De choro, remorso e mágoa.
Dúvidas, sangrando,
Em cada dor fustigada.
Fim de caminhada – e –
Desço um verso ao papel
Para alguém me socorrer...
Que nada!
Nossas vidas reiniciam as mesmas
E minha alma
Nunca está lavada!
JOCA DE OLIVEIRA
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