À BEIRA DO AÇUDE

Às vezes, adoro entardecer em bares solitários
Para observar imprevistos pontais.
Ver a queima dos últimos fogos do dia,
Longe das luzes provocadoras dos shoppings...

Longe das poses artificiais
Das mulheres de cabelos volumosos
Cujos olhares só atravessam vitrines...
Não tenho falsos brilhos para ofertar.

Gosto de ficar num bar, à beira do rio,
Com fritas na boca,
Sem que ninguém estranhe minha solidão

Aprecio o gosto dos que se afastam
E vão para lugares solitários sem medo;
Indiferente à proteção das marquises
E sem a interferência dos relógios.

Gosto da mata perto da cidade.
Gosto de bares perdidos,
Onde a noite passa tão lenta
Que a Lua fica pregada à escuridão,
Como numa fotografia.

Só assim eu posso me embriagar
Sem protestos,
Se a mulher, a quem estou esperando,
Não aparecer nunca mais...

Gosto de bares solitários,
Como este, à beira do açude,
Porque, como todos já devem ter percebido,
Sou um solitário!

Agora estou bem. Eu olho o entardecer.
Duas garotas suburbanas passam,
Do outro lado da rua, cochicham,
Se abraçam, olham para mim, e sorriem.

Devagar...
Ainda posso vê-las dobrando a esquina,
E nos cumprimentamos timidamente,
Num misto de apresentação e despedida.

Há, no entanto, uma intuição
De que nada é / foi definitivo.
A Lua se alevanta, bela e gloriosa,
E a noite se estabelece como que por encanto!

JOCA DE OLIVEIRA
Açude do Prata, Casa Forte, junho de 1995.

 
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