| AUTOBIOGRAFIA
Não daria certo:
Eu quebraria a linhagem
Se meus ancestrais fossem nobres.
Meu único trapo de aristocracia
É ser torcedor do Náutico.
Também não me acostumaria
A ser puro,
Por isso nasci mulato e triste.
Ainda bem que tem a aguardente
Para me botar na brincadeira.
Eu tirei muito da cachaça
E a cachaça tirou muito de mim:
Estamos empatados.
Nasci na véspera de São João
E minha avó profetizava:
Vai ser alto e muito pensativo.
Achava isso por conta dos balões.
Ronco feito uma baleia
E tenho procurado controlar o ódio
Porque afinal
Esse também é ancestral.
Vem de um certo território indígena
Que está a salvo dentro da minha alma.
Meu primeiro nome é João.
Meu segundo nome é José –
Que é o nome de meu Pai.
Mesmo classificado como o sétimo
Da barriga de minha mãe,
Guardo o sentimento
De que é irrecusável nascer.
Dei trabalho
Como qualquer filho
E faço um esforço enorme
Para não parecer/ser ridículo,
Subserviente e hipócrita.
Acredito que só serei feliz
Quando me mantiver fazendo
Algo de muito necessário
À sustentação do Planeta.
Recife não me fez boêmio,
Aperfeiçoou-me.
Aos inimigos, eu os proíbo
De pisar na minha grama.
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