O VENDEDOR DE CARANGUEJOS
Aconteceu comigo na feira de Igarassu. Eu estava lá, bem na frente do mercado, pela manhã, logo cedo. Buscava comprar uma “mistura” pro almoço e completar assim o meu feijão com arroz. Parei ao lado das tábuas de carnes; as melhores partes estavam expostas, penduradas em ganchos, foi quando topei com o vendedor de caranguejos, com várias cordas do bicho espalhadas no chão batido:
- O senhor quer caranguejos?
- Não, senhor. – respondi, quase sem olhar pro vendedor e me virei pro outro lado da rua...
Comprei uma banda de jerimum, um “mói” de coentro e bastante batata inglesa... Adoro batatinhas. Foi nesse exato instante que o vendedor de caranguejos começou a chamar a atenção dos fregueses. Um pouco irritado, talvez por não ter vendido nada até aquela hora:
- Quem quer caranguejo gordo?!
- Tá gordo!
- Olha o gordo!
- Quem quer o gordo?
- Tá gordo, minha gente!
Quando a gente está com a auto-estima baixa... Não é comigo – pensei. Mas o vendedor de caranguejos não parava:
- Quem quer o gordo?!
- Olha o gordo!
Aquilo ficou irritante. Foi a gota d’água. Olhei de soslaio pro vendedor de caranguejos, depois mirei a primeira barraca do mercado onde estavam expostas as carnes e pedi bem alto:
- Meu senhor, pesa aí um quilo de mocotó, no capricho... Ah, quero também meio quilo de miúdo, sangue de boi e tripa.
Logo ao lado, aproveitei a moça que vendia maxixe e quiabo, e comprei uma bolsa de cada... Paguei e saí do mercado o mais rápido que pude. Não me virei mais pro lado do homem do caranguejo que continuava a gritar (ou seriam os meus ouvidos):
- Tá gordo!
- Olha o gordo!...
Perto do estacionamento, ouvi minha consciência pesadíssima falando baixinho nos meus ouvidos:
- Tem dias que você é um diplomata suíço, mas tem dias que você é um cavalo batizado!... Hoje, você estava com uma vontade danada de enfiar umas porradas no vendedor de caranguejos, ah, isso você estava... Não estava não, gordo?!
JOCA DE OLIVEIRA |