O SOLITÁRIO DA BARÃO DAS ÁGUAS CLARAS


Olívio já nasceu poeta. Aos quinze anos, teve seu poema Os Grilos premiado em concurso literário. Tinha estilo, mas não buscava um estilo, uma escola. Era essência e ritmo. Foi, sobretudo, um apaixonado pela arte e pela vida, apesar do regime de reclusão quase monástica que passou a viver, devido a sua frágil saúde. Incapacitado para terminar o curso de Sociologia, em Recife, teve de voltar a morar com os pais e esquecer os estudos, ainda bastante jovem. Viveu praticamente solitário, em Ribeirão, nossa terra natal, onde morreu prematuramente aos trinta e oito anos de idade.

Ainda procuro me lembrar daquela figura tímida, de passos e gestos lentos, constantemente a procurar o sentido das coisas; sua permanência por horas inteiras, à janela, divagando sobre os mistérios da vida, sobre o planeta dos homens, sobre os deuses, com poucos amigos na cidade e até na sua própria rua. Vez ou outra aparecia alguém para conversar sobre cinema, sobre poesia e música. Raras horas em que ele me chamava para partilhar dessas conversas.

Olívio não trabalhava só a Poesia. Amava os livros de diferentes gêneros literários, ensaiava escrever alguns romances, redigia artigos e ensaios sobre diferentes assuntos, cultivava a música, colecionava o que de melhor havia na Música Popular Brasileira, naquela época: discos de Elis, Chico, Caetano, Gil, Rita Lee, Luiz Melodia, Edu Lobo; e da música internacional: Bob Dylan, Pink Floyd, Beatles, etc. Viveu um mundo de ficção e sonho. Foi crítico sutil da arte cinematográfica. Juntava cartazes, fotos, sinopses e artigos sobre cinema. Devoto desse imenso santuário, acumulou textos e críticas sobre filmes, atores e diretores. Adicionava biografias, revistas e recortes de jornais ao seu acervo como um aplicado curador. Trazia como um costume fazer anualmente uma pesquisa entre os seus poucos amigos: a lista dos dez melhores filmes de todos os tempos. Um desses filmes, escolhido por ele, era VIVER, de Kurosawa. Coincidentemente, ele me falara desse filme algumas semanas antes de sua morte. Era a história de um senhor que foi informado pelo médico de que possuía uma doença incurável e, provavelmente, só alguns meses de vida. Este senhor era dono de uma boa quantia em dinheiro, porém não tinha para quem deixar. Auxiliado por um rapaz que encontrou num bar perto de sua casa, resolveu deixar uma marca neste planetinha engraçado. Planejou gastar esse dinheiro na construção de um parque infantil para divertimento das crianças pobres do bairro. Apenas sentia, talvez, não ter tempo para concluir esse sonho.

Incrível, como essa história me foi contada por Olívio nos últimos dias de sua vida e depois me pareceu quase semelhante a uma premonição. Olívio tinha um projeto de levar à frente um jornal de poesia e variedades, voltar a agitar culturalmente a cidade, trazer de volta os festivais de música, e contava comigo e outros parceiros para tal empreitada. Não deu. Numa acinzentada manhã de julho de 1989, Olívio nos deixou. Foi um dia chato. O dia havia perdido seu lirismo e as folhas mortas, na Praça Barão das Águas Claras, onde ele, solitário, tantas vezes permaneceu compondo a poesia da tarde, cobriram de outono uma parte de nossas vidas. O poeta silenciou quase esquecido. Porém, como o velho do filme, feliz por ter deixado uma semente, por ter cumprido o seu papel e por ter realizado com amor os pequenos sonhos de sua vida simples e fantástica.

Somos irmãos e filhos da tragédia. Os anos se repetem com a mesma violência e estupidez dos homens e há carência da poesia de Olívio, que foi uma pequena luz em meio a tanto obscurantismo. Olívio se foi num ano de grandes perdas: Laurence Olivier (a quem ele amava), Leminski, Luiz Gonzaga, Nara Leão; o Advogado, Estênio Alves Leite, e o Educador, Pe. Antonio Borges, entre outros. Olívio se foi, ou não se foi? Guimarães Rosa, se o tivesse conhecido, teria dito: “Olívio, você não morreu, você ficou encantado!”

Hoje, completados dezessete anos de sua morte, ainda lembro da pessoa que me desvendou um mundo de outros valores, o mundo da poesia, da boa música, do teatro e do cinema; um mundo riquíssimo, além daquele que a monocultura da cana-de-açúcar nos mostrava e do qual éramos meros coadjuvantes, em nossa cidadezinha do interior de Pernambuco.

Coisas passarão, mas o valor do espírito permanecerá. O espírito de Antônio Olívio Ramos estará sempre presente nas suas poesias e nos corações daqueles que, de alguma forma, tentaram e ainda tentam resgatar a sua obra.


JOCA DE OLIVEIRA
Ribeirão, julho de 1989 / Recife, julho de 2006.


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