O PENTACAMPEÃO
Todos os dias, ao entardecer, caminhava na quadra de esportes
do condomínio onde residia. Não sonhava em recuperar
o físico do belo peladeiro que fora aos dezesseis anos.
Fazia-o mais por insistência da irmã, preocupada
com sua saúde. Havia jogado até os trinta anos,
quando conseguiu terminar a universidade. A partir dali, começou
a cultivar uma bela barriga, adubada com cervejas, doces e uma
confortável vida sedentária. Esquecera completamente
aquela que fora sua primeira paixão. Porém, numa
tarde, quando começou a aquecer para o seu Cooper vesperal,
observou, sobre a grama, deixada, talvez, por algum garoto do
prédio, uma bonita bola de borracha. Lentamente, ele
caminhou até ela, e a tomou em suas mãos. Elevou-a
para o ar e esperou a “bicha” no peito...a bola
escorreu até o chão. Descalçou um dos tênis
e começou a fazer “embaixadas”. Em seguida,
demorou quase meia-hora chutando a bola contra a parede, para
um goleiro imaginário. Quando cansou, ficou lembrando
– dominado pela saudade – que suas melhores jogadas
nas peladas não foram filmadas. Fora um simples peladeiro
e a tecnologia só chegaria anos depois. Nunca teve nem
teria o privilégio dos jogadores profissionais aposentados.
Gostaria de poder mostrar para os seus e para os meninos da
rua: suas belas jogadas, seus dribles desconcertantes, seus
belos gols. Em seus olhos brilharam as primeiras estrelas da
tarde: duas lágrimas. Deitou-se sobre o chão da
quadra e usou a bola como travesseiro. Fechou os olhos e sonhou.
Se viu no Oriente longínquo, na final da Copa. Quarenta
fotógrafos na beira do campo, quatrocentos jornais, quatro
mil canais de televisão. A bola foi lançada para
ele. Num toque sutil, livrou-se da marcação forte
de Sensini, jogou a bola no meio das “canetas” de
Sorín e tabelou com Ronaldinho. Recebeu a bola de volta,
na linha de fundo, e, com o bico da “chanca”, cruzou
no peito do “baixinho”: Romário ajeitou e
deu um pipoco indefensável na cara do goleiro Burgos.
Brasil 4 x 2 Argentina. Ia gritar “Pentacampeão!!!”,
quando um garoto de sete anos puxou a bola e fez a pergunta
mais óbvia do país do futebol: – “O
senhor quer jogar?”.
JOCA DE OLIVEIRA
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