O ANUNCIADOR DAS FESTAS
Lula Doido era bastante conhecido por todos os moradores da Rua Coronel Luiz Gusmão, a rua sem calçamento onde vivi minha infância, e que todo mundo chamava de Rua da Fábrica, em Ribeirão. Sua figura lembrava a parte do poema de Leminski que diz: todo bairro tem um louco que o bairro trata bem. Era muito alto para sua cabeça pequena. Os braços longos, o corpo desengonçado. Seu jeito engraçado cobria um pouquinho a feiúra. Apesar da guerra de pedras quase diária que ele tinha com os meninos da rua, Lula era inofensivo. Só não agüentava a carga de apelidos que se lançava sobre ele: Espanador da Lua, Astronauta, Peixe-Elétrico, Piaba de Correnteza, Pantera Cor-de-Rosa, Boneco da Fanta, Cipó-de-Bater-em-Judas, Corcunda de Notre Dame, etc. Aí, tome pedra no agressor. O curioso era que todo apelido pegava, e a resposta era curta e direta:
- ”É a mãe!”.
Daí eu achar que a rua tratava bem, em parte, o nosso Lula. Porém, no dia-a-dia, parecia que todo mundo gostava dele, apesar das gozações. Quando não vencia as pilhérias, Lula se queixava às próprias mães da rua. Nas vezes em que ia lá à casa da minha mãe reclamar, era acalmado com uma moeda, um pão, uma banana, um agrado qualquer.
Lula era conhecido também como anunciador das festas! Quando estávamos reunidos na pracinha da rua, ele sempre chegava com uma “novidade”: “pra semana é carnaval”, ou, “depois de amanhã é São João”, ou ainda, “quinta-feira é Natal”! Quando acabava uma festa, ele já lembrava a próxima:
- “Carnaval, só ano que vem. Agora é Quaresma!”.
Um engraçadinho mexia logo com ele:
- “Tu vai tá vivo, Lula?”.
Ele imediatamente respondia: - “Pergunta a Jesus”.
Alma boa, Lula. Aprendi com ele que boa parcela da humanidade é bastante cruel com os feios.
Certo dia, Lula desapareceu no mundo. Então, passaram-se semanas, meses, e nenhuma notícia do danado. Lula passou um bom tempo sem dar notícia. Ninguém sabia do paradeiro de Lula. A rua ficou um pouco sem movimento e todos sentiam a sua falta. No começo, os irmãos procuraram na cadeia, no hospital, no necrotério, nas casas de parentes, e nada de Lula! Depois de alguns meses, desistiram de procurar. Quase um ano depois, o serviço judiciário do estado de São Paulo apareceu com Lula em sua casa, em nossa cidade. Estava perdido pelas ruas de Sampa, “sem lenço e sem documento”. O Delegado mandou dois agentes devolverem Lula à sua família. Chegaram de ônibus, numa quarta-feira. Foi uma festa na rua. Lula com um paletó “engole-ele”, arranjado pelos homens, e foi devidamente entregue a Seu Antônio, Pai de Lula. A rua voltou ao seu normal.
Vou lembrar um momento legal de Lula: numa terça-feira de carnaval, na pracinha onde nos reuníamos em frente de casa, estávamos na maior “morgação”. Muitos de ressaca, outros desanimados, todos abatidos, alguns com as caras sujas de pó e batom, esperávamos a troça da prefeitura, que deveria sair às dez da manhã, em ponto, e era nossa única esperança de algo para alegrar o dia.
Eu, Hélio Cachaça, Van, Deno, Marroque, Valdeque, Zé Tempero, Nego Dindo, Ilo, Ismail e grande elenco olhávamos para a entrada da rua. Já passava das onze e meia da manhã, quando um toque de metais quebrou o silêncio do meio-dia. A duzentos metros, na frente da troça, sem camisa e com os braços levantados, surgiu o nosso Lula. Foi o porta-estandarte mais estranho que eu já vi em toda minha vida. O estandarte era uma camisa na mão. As costelas aparecendo, a calça amarrada por um barbante, Lula Doido vinha capitaneando um comboio de maloqueiros, um magote de raparigas, bêbados que só a peste, e uma população inteira ávida de curtir o último dia do reinado de Momo. Todo mundo se levantou, e Hélio Cachaça comentou:
- Lá vem Lula!... É a troça da prefeitura!... Agora o carnaval vai começar pra valer!
JOCA DE OLIVEIRA
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