ORAÇÃO
DA PLACA
Chegamos ao momento tão entusiasticamente sonhado ou
pressentido por nós, no decorrer desses cinco preciosos
anos de coleguismo e de convivência diária, em
que galgávamos as escadarias desta escola. Chegamos para
começar a subir uma outra escadaria muito maior, e que,
para o restante de nossas vidas, nós teremos que tentar
sua íngreme escalada, com todos os seus obstáculos
e riscos: a escadaria da Justiça.
Tal feito, teria absolutamente que ter seu lugarzinho num determinado
momento da eternidade, num determinado momento de nossas vidas
que se repetem em cada família, em cada escola, em cada
comunidade. E ele está simplesmente simbolizado por uma
pequena placa, porém, tão grande aos nossos olhos,
que parece que ali, naquele pequeno marco de metal, estão
compilados, escondidos, presos e eternizados, todos os nossos
momentos: ilusões e desilusões, sentimentos e
ressentimentos, desavenças naturais, amores e profundas
amizades; buscas de diferentes ideais para um mesmo ideal, variadas
formas de lutar, dores e pesares, lágrimas e suores;
mas, muito mais, intensas alegrias, paz e contemplação
de gestos nobres, mesmo nos piores momentos atravessados pela
universidade brasileira, resquícios de uma política
educacional errônea, que dificulta o ingresso e, até
mesmo, a uma boa formação universitária.
Por outro lado, como brilho maior para esta placa, vejo o brilho
de todos os momentos em busca incessante pela polêmica,
soberba e dolorosa noiva: chamada Justiça. Noiva esta,
de inúmeros pretendentes, mas que sempre guarda seu coração
para aqueles que a procuram com amor e obstinação,
e para os que, acima de tudo, a procuram com a humildade.
É nesta placa, senhores e senhoras, que sentimos toda
busca humana para se deixar ficar, quando, desta turma, não
mais se lembrarem aqueles que facilmente esquecem. Esperamos,
talvez, toda uma vida por este momento, esta busca da posteridade,
começada desde que o Homo sapiens escreveu, em paredes
de belíssimas cavernas, sinais e figuras geniais para
a época.
O homem se eterniza na arte e no símbolo. Criou códigos
de leis variados e monumentos fantásticos; erigiu estátuas
monumentais, colossais pirâmides e túmulos. Fundiu
diferentes metais, e teve nas mãos diferentes massas.
Trabalhou a tinta, o gesso e o papel. Emoldurou, pintou e escreveu.
Deixou marcos exuberantes como a grandiosidade das leis do Direito
Romano, assim como simples referências: na pedra de Roseta,
decifrada pelo sábio francês, Champollion. Na sua
busca ansiosa, na tentativa de ficar, o homem criou toda uma
aventura marcada de culturas variadas, que chegaram ao nosso
tempo em forma de história, tendo o Direito um papel
importantíssimo na luta que travou para tornar mais justa
e mais digna essa história, e sentiu, quando foi usado
como arma de arbítrio e opressão por povos que
não compreenderam o seu real significado. Nunca deveremos
imitar estes.
Sabendo-se participantes dessa história e de toda aventura
humana, eu e meus companheiros, não deveríamos
deixar de acompanhar essa atitude milenar... A de simbolizar
a nossa formatura, a nossa chegada às praias da Justiça,
com um valoroso marco. Vejam Castro Alves!... Que está
ali naquela praça! Ele tem um quê de eterno; seu
busto impõe respeito aos povos futuros. Nós teremos,
também, um pouquinho desse eterno: entramos para a história
da Faculdade de Direito do Recife; e este símbolo está
aí plantado, para registrar a passagem de uma valorosa
expedição que buscou o templo da deusa Justiça
– A expedição da Turma de Direito de julho
de 1986.
Quero agradecer à Turma pela honrosa missão que
a mim foi confiada. Quero parabenizá-los pela feliz escolha
do nome da Turma, para que Dom Hélder Câmara –
perseguidor incansável da Liberdade e da Justiça
– pudesse compor nossa placa. Quero parabenizar, também,
a todos aqueles que nos seguiram nesta jornada, e que lutaram
ao nosso lado: pais e mestres, funcionários, parentes
e amigos, inclusive àqueles que tombaram no meio da luta,
e que já fazem parte da nossa memória. Parabéns,
especialmente, a todos vocês desta Turma, que o Direito
consiga valorizá-los e realizá-los em todos os
seus aspectos.
Finalizo, deixando a mensagem de que: devemos colocar o Direito
acima da corrupção da Justiça e dos grupos
interessados em enfraquecer as boas leis; devemos colocar o
Direito contra todas as causas que geram todo e qualquer tipo
de violência; devemos colocar o Direito ao lado do social
e da história da sociedade, porque precisamos acreditar
no homem: “no seu pensamento, na sua palavra, na sua crítica,
na sua oposição, na sua LIBERDADE”.
Bel. João José de Oliveira
ORAÇÃO DA PLACA
TURMA DOM HÉLDER CÂMARA
FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
Recife, 14 de julho de 1986
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