MINHA TERRA NÃO TEM PALMEIRAS, NEM SOU AMIGO DO REI...

Ribeirão chora por seus filhos mortos em acidente terrível, na noite de quarta-feira, dia 10 de setembro de 2008. Um ônibus escolar, repleto de estudantes universitários, chocou-se com um caminhão na BR – 101, quando voltava de Palmares. Como filho da terra, a gente fica triste em saber que sonhos foram desfeitos, que jovens promessas e futuras reservas de conhecimento ficaram pelo caminho. Que vai ser difícil reconstruir o esforço de pais e amigos, a ajuda dos professores, as noites em claro e insônia envoltas em livros e esperanças, olheiras, a preocupação dos parentes e a expectativa de uma cidade inteira ao acompanhar, por anos e anos, a evolução intelectual de seus patrícios.
A cidade de Ribeirão, na véspera de completar 80 anos de emancipação política, sofre mais uma vez o impacto de uma tragédia de grandes proporções, desde o desmoronamento da Matriz de Santana, em noites que dificilmente serão esquecidas pela população. Para uma cidade de poucos ricos e uma população pobre, que poucas vezes povoou os noticiários de rádios e jornais com notas de idealismo e alegria, carente de uma educação universitária e de um campo industrial que venha absorver a ânsia de jovens sonhadores, sofre, mais uma vez, um duro revés.
Eu sei muito bem o que é sair de um bairro carente e de uma cidade com poucos recursos, para estudar fora e tentar cumprir objetivos pessoais. Sonhar, às vezes, sonhos impossíveis, ver o olhar de descrença até dos mais próximos, lutar por um curso que aos olhos dos outros pode ser o mais simples, mas que pra você é o mais superior dos destinos a ser alcançado. E é pena ver esse desejo de ser grande da parte de pessoas, conterrâneos que nem conheci, ser interrompido de forma abrupta e irreversível. Meu sentimento de impotência nessa hora só me leva a chorar feito um menino.
Vi depoimentos de alguns alunos que sobreviveram que me fizeram pensar e dizer: espero que vocês se restabeleçam e não desistam nunca. Que retomem suas vidas e lutem pela memória e pela história de seus colegas, e por si próprios, e pela sua cidade, que todos merecem um futuro melhor. Que saibam que a vida tem momentos assim: aqui em Ribeirão ou em Nova Iorque.
Minha terra não tem palmeiras, nem sou amigo do Rei, mas venci muitas adversidades para chegar a algumas vitórias e ainda continuo lutando. O poeta diz que é de sonhos que se inventa uma cidade. Esse humilde poeta no dia de hoje remete simplesmente a todo o povo da cidade seu sentimento de pesar e pede que a juventude de minha terra nunca perca a esperança, por mais remota que seja. Deus fique com todos.


Recife, 12 de setembro de 2008.
JOCA DE OLIVEIRA



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