MEU TRAVESSEIRO

velho e silencioso amigo, companheiro de horas amargas e noites felizes. colheu lágrimas em suas camisas e enxugou-me suores febris. bebeu o resto de meus vômitos e aceitou minhas mordidas. partilhou minhas horas solitárias e meus sonhos de vida. me esperou, resignado, todos os dias. ouviu lamentações e gemidos com paciência, carinho e determinação. não hesitou em dividir amantes e namoradas. aturou meus roncos, babas caindo, e se deixava abraçar por mim, na falta de alguém. guardou em segredo todas as minhas idéias pecaminosas e meus pensamentos privatíssimos. o amigo que nunca me trairá e que guarda no seu seio um mundo de estranhos sonhos, uma coleção de amores que nunca tive e um carrossel de pensamentos nunca revelados. ao rasgá-lo, o corte no seu corpo ferirá como uma gargalhada. não haverá dinheiro nem documentos perigosos. apenas sua alma... que voará leve: flocos de espuma sintética, soltando risos. apenas.

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