| MANÉ BARRÃO
E BAUZITO (Ficção)
Joca de Oliveira
Era um recanto de maloqueiros, no bairro da Fábrica,
em Ribeirão, Mata Sul de Pernambuco. O lugar também
servia de descanso após a pelada. Ali, muitas histórias
aconteceram. Ficava em frente ao bar de Zuza e embaixo da árvore
mais antiga da cidade: a velha mangueira de mil pedradas, da
manga verde rasgada com sal e cachaça. Vi muitos moleques
e peladeiros se juntarem para conversar potocas, em frente ao
bar. Vi, também, o mendigo Mala Véia apodrecer
dormindo sobre as folhas secas, embaixo da mangueira. Cena triste.
O bar era freqüentado quase sempre por desocupados, jogadores
de sinuca, aposentados e pelo pessoal da rua. Antigamente, fora
palco diário de acontecimentos mais alegres, no tempo
dos Maros: Maro Boemia, Maro Pimenta e Maro dos Olhos Verdes,
porém, com o fechamento de duas turmas da tecelagem,
o ponto foi entrando em decadência e perdeu seus momentos
de glória. Contudo, ainda possuía freqüentadores
habituais. Bauzito, funcionário da fiação,
sempre “batia ponto” naquele esconderijo, quando
largava, às onze e meia da manhã. De temperamento
calmo, se sentava num canto, quieto, pedia um quartinho, e tomava,
compassadamente, antes de seguir para casa. Era baixo de estatura,
corpo franzino, mas tinha um grande coração e
era benquisto pelo pessoal da rua. Dona Alice, a vizinha, conhecia
quase todos os bêbados da cidade. Viu muita presepada
de nego. Ficava na esquina, de tocaia, olhando quem entrava,
quem saía, quem vinha chutado e quem vinha só
tostado. Era faladeirazinha que só. Os cachaceiros mais
chegados ao espiritismo torciam para que a velha, quando morresse,
reencarnasse em forma de árvore. Uma árvore que
tivesse uma existência de mil anos. Seriam mil anos sem
falar. Ô castigo merecido!...
Era lá que Mané Barrão, sujeito arrogante
e um dos poucos endinheirados da cidade, vivia contando suas
vantagens:
- Tenho dezoito cabaços nas costas!... Mulher de
amigo meu pra mim é home, eu só quero o traseiro!
E saía por ali, desatando suas “pérolas
fecais”. Barbudo, alto, com uma avançada calvície
e quase cem quilos de pança, gostava de um farol. Era
metido a dar em cima das mulheres dos outros, de dar tapa em
gente mais covarde do que ele, de ridicularizar aqueles que
estavam em cima da Terra só fazendo número, ou
números, que era o caso de Verlon, um papudinho das calçadas.
Outro dia, naquela bodega, o Verlon se aproximou dele, sujo,
maltratado, que só um judas de Semana Santa, e tentou
um arreglo:
– Seu Mané, pague uma lapada pra eu!
– Sai pra lá, miséra! - Foi a resposta do
Barrão. Deu um empurrão em Verlon, que o pobre
estatelou-se calçada afora, tendo passado um bom tempo
pra se levantar, e só se levantou graças à
ajuda de Bauzito, que foi acudir o miserável. Isso era
quase meio-dia, e o ferimento na perna de Verlon fazia-o lançar
impropérios ao arrogante manda-chuva do bairro da fábrica:
- O sinhô tem força, mas num tem pudê!
Pudê, só aquele lá de cima! - E foi
na torneira do jardim da prefeitura lavar os ferimentos. Quase
sempre a coisa ficava por isso mesmo. Ninguém tinha coragem
de topar Mané Barrão. Até Timóteo,
garçom do bar, se limitava a dizer:
-Vocês não bulam com o home. Eu tô canso
de dizer!
Bauzito voltou pra mesa onde tinha deixado sua cachaça,
pegou o copo onde estava o resto do quartinho, e o ofereceu
a Verlon. Verlon tomou de uma lapada só. Mané
Barrão não perdia um gesto dos dois. Passados
alguns minutos, desatou:
- Taí, Zuza, o defensor dos frascos e dos comprimidos!...Rá,Rá,Rá...
- Barrão, você só trata assim os pebas,
a gente pobre; na frente dos patrões, você se caga
de medo. Fica submisso que só uma porca véia!...
Emendou, na hora, Bauzito.
Nisso, dois capangas de Barrão entram, armados, no recinto,
para escutar a discussão e se postam ao lado do chefe.
Barrão se enche de imponência:
- Num pobre coitado, qui nem tu, eu dou só de chinela!
Qui além de baixinho, tu é o maior corno da Rua
da Ladeira. No tempo qui tu trabalhava no turno da noite, na
Ladeira era só o que se falava!
Bauzito partiu feito a gota pra cima de Barrão, mas
foi contido pelos jogadores de sinuca do bar e, principalmente,
por Timóteo, o garçom que gostava demais dele:
-Vai pra casa, Zito, esses caras tão armados e
não vale a pena se arranhar por besteira!
Bauzito saiu arrastado pelo pessoal do aqueta-arreda, mas
sem antes deixar de dizer:
Barrão, um dia alguém vai arrancar essa sua arrogância
pela boca!...
Mané Barrão era administrador da tecelagem.
Botava a testa para defender os donos da empresa. Como xeleléu
de primeira categoria, havia recebido carta branca dos patrões
para contratar gente, demitir gente, trocar o cabra de turma,
o escambau. Quando ele tinha conhecimento de que a mulher do
operário fulano de tal era bonita, jeitosa, e o casal
andava passando por dificuldades, Barrão colocava o sujeito
para trabalhar no turno da noite, só pra poder ficar
livre e, assim, paquerar a mulher do coitado, fazer agrados,
dar presentes, perguntar como ia a vida. Desse jeito, faturou
umas quatro infelizes. Os maridos ficavam, depois, alvos das
maiores gozações entre os empregados. E tudo ficava
na base da “suspeita”. Ninguém tinha coragem
de peitar o Barrão. Com o tempo, o estigma de corno era
mais ou menos esquecido e o operário traído ia
aprendendo a conviver com a humilhação, por não
ter como nem onde arranjar outro trabalho.
***
- Mai Bau, comé qui tu acredita numa istória
dessa. Num só tem mulé safada no mundo, não,
como aquele porco diz. Tem mulé direita! Todo mundo sabe
que Barrão deu em cima de todas as empregadas da companhia.
Mas eu nunca cumi aquela conversa dele. - Defendeu-se,
Maria, a mulher de Bauzito.
Bauzito ficou calado. Passou a semana piongo, quase sem falar
com a mulher.
Quando amanheceu o domingo, dia de feira, Bauzito acordou cedo,
tomou um banho e botou uma roupa leve. Pegou a sacola da feira
e colocou dentro dela apenas um trinchete, metal maior que um
canivete e um pouco menor que uma faca-peixeira. Quando se despediu
de Maria, os olhos dela eram somente lágrimas: do mais
puro amor. Barrão tinha jogado um torrão no lago
cristalino dos dois.
Bauzito passou toda uma manhã à procura de Barrão.
Estava esquisito. Eram dez horas, e a sacola de feira dele ainda
estava vazia. Por volta das onze, tomou uma cana no Bar da Passarinha,
e vinha descendo a pista, concentrado, quando, ao pé
da sagrada mangueira, dois metros abaixo dele, viu o safado
do Barrão conversando com dois feirantes. Bauzito foi
chegando, devagar, por detrás da mangueira, tirou seu
punhal e deu um pulo certeiro na “caixa dos peitos”
do gigante. A arma atingiu em cheio o coração
de Barrão. Foi enterrada até o cabo, e o atacante
ficou enganchado alguns segundos à vítima, até
o povo da feira se dar conta do que estava acontecendo. Quando
Bauzito o soltou, Barrão ainda olhava, perplexo, para
os olhos miúdos do seu pequeno inimigo e, por fim, desabou
por cima dos mangaios ali espalhados. Foi um corre-corre da
mulesta. Contudo, quase todos os que assistiram à cena
afirmaram que viram quando Bauzito subiu a ribanceira de volta
à pista, dobrou a curva do posto de gasolina, e ganhou
o mundo.
Ninguém teve a coragem ou vontade de agarrá-lo.
Até os policiais, Gato Mago e Neco, abriram passagem
para a fuga de Bauzito. Tinha nego, ali, de alma lavada. Até
Dona Alice, que de tudo sabia, gritava, parecendo uma velha
louca: ? Vai, Bau! Vai, Bau! Nem feirante, nem soldado, nem
vereador: ninguém quis prender o assassino.
Muitas pessoas, durante certo tempo, disseram que viram, naquele
dia, Bauzito correndo para um caminhão, pulando pra cima
da carroceria, e o veículo disparando para os lados da
cidade de Palmares. Na verdade, ninguém nunca mais ouviu
falar em Bauzito.
Maria, hoje, está amigada com Tonho de Canuto, e toma
conta de um bar na Rua da Ladeira. Foi ela quem me confessou:
- Tá dirfice um home daquele naipe hoje em dia, Seu
Minino! Bauzito era um home!
N.A: O presente texto faz parte da Antologia OLHARES DE PERNAMBUCO.
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