LEMBRANDO HELOÍSA
BANDEIRA DE MELO
(in memoriam)
Eu a conheci no começo dos anos 80, na antiga feirinha
de Olinda, freqüentando as barracas dos amigos. Estava
com uma fita no cabelo, acho que vermelha, e já havia
tomado todas. Eu também. Ficamos amigos. Os anos se passaram,
e só fomos nos ver de novo, no começo dos anos
90. Replay. Continuamos amigos, mas nunca paramos para nos conhecer
verdadeiramente. Intensidade demais, pressa demais. Sorver a
vida num gole, era a proposta. Daí eu ter tão
pouco conhecimento da poesia de Helô, e ela tão
pouco da minha. Quando estávamos juntos, a poesia era
a própria vida a escorrer pela garganta abaixo, no emborcar
da cerveja, no trago do cigarro. Perdi seu primeiro livro de
poesias, autografado por ela naquela mesma feirinha, porém,
desconhecia seus textos em prosa. CATÁLOGO NUTRIZ, que
foi publicado no Balaio de Gato, décimo número,
foi uma surpresa para mim. Veja e leia o texto abaixo:
Alfredo tinha paixão por palavras difíceis.
Esmaniava mesmo.
Quando criança, devorava dicionários e vomitava
manquito aqui, rorejar, manconar acolá, chamava de chupistas
os velhos da praça, abocanhando cigalhos de efêmera
fama e achando-se um grande erudito na cidade.
Aos 38 anos, sempre ladeado pelo seu “Aurelião”,
foi ao baixo meretrício para que todos vissem que era
normal sexualmente. Foi a sua perdição!
Para praticar o ato sexual com a parceira escolhida e devidamente
paga, viu-se na obrigação de deixar o grande livro
aos pés da cama, onde roedores esfaimados aguardavam
em antigório jejum.
1.237 palavras foram deglutidas, antes que se pudesse soletrar
Pindamonhangaba.
O nobre Alfredo levantou-se abruptamente, dirigiu-se à
sua moradia e bebeu seis vidros de tinta especial para caneta-tinteiro.
Foi encontrado em decúbito dorsal, coberto por letras
desarrumadas, sem formar nenhum vocábulo coerente, a
não ser a palavra Enteléquia.
Nunca mais vou ter a chance de me sentar numa mesa de bar com
Helô. Eu queria tanto comentar com ela sobre o texto!
Ele é excelente! Tem uma boa dose de humor negro. E o
que me deixou mais curioso foi o seu conteúdo semântico.
Que diabo é manquito? Manconar? Antigório, segundo
o “Michelão”, não quer dizer muito
antigo. Por que ela teria usado a palavra no sentido trans(figurado)?
Consegui, pesquisando em dicionários, as palavras manquitó
(coxo) e manguito (pequena manga). Também o verbo manquitar.
Talvez, daí, a palavra manquito. Ex: Eu manquito. E,
ainda, as palavras mancomunar (ajustar-se) e mancornar (segurar
o touro com as mãos). Manconar, não encontrei!
Outras palavras do texto, aparentemente estranhas, existem.
Quem sabe, com tão sugestivo texto, nossa amiga não
tenha imaginado transformar todos os seus amigos em alfredos
pesquisadores. São perguntas que só nossa Joplin
maurícia poderia responder, se viva fosse!
Que lacuna enorme, baby! Tem amigo seu ainda macambúzio.
Quando fico sorumbático, me valho da poesia, imaginando
que o sonho ainda não acabou! Para o lugar mais psicodélico
do céu, te mando um beijo!
JOCA DE OLIVEIRA
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