FOLHETO DE CAMPANHA

Seria o último grande comício. Naquela noite, eu estava com um chapéu que tinha uma fita com as cores do partido. Coisa de americano! A campanha estava acirrada. Eu não havia perdido o entusiasmo, naquela altura da campanha, apesar de ter encontrado alguns corações descrentes. Cheio de panfletos, penetrei no ônibus de bandeiras ainda enroladas, de batuques e risadas, e sonhei que, logo mais, o candidato humilde - que representava nosso bairro - iria fazer um discurso de abafar.

A noite estava maravilhosa, iluminada. Quando o ônibus chegou, a praça estava cheia de gente se espremendo nos bares, nas calçadas, no meio das ruas. Em frente ao palanque, eu me postei com ouvidos atentos, e sabia o quanto seria bom observar uma voz que falaria do homem oprimido.

O comício começou. Naquele momento, eu queria que todos prestassem atenção, pois meu candidato imprensava-se no palanque e lutava por espaço. Olhava, ávido, o microfone à sua frente. Sonhava ter aquele meio de comunicação, ainda que por alguns minutos... Mas, chamaram pequenos e desconhecidos candidatos, de início, menos ele; depois, os candidatos de porte médio; logo, em seguida, os grandes: os medalhões... E nada de Zé! Teve um que fez um discurso de quase uma hora. Passou outro que usou as palavras como um estelionatário. E teve aquele que até chorou. E um bem eloqüente, que gritava: - Viva o partido!... Viva a Liberdade!... Só o meu candidato não falou. Meu candidato é muito humilde. De poucas letras. Tinha tanta coisa a dizer. Tanta coisa real. Da miséria, da fome, da tristeza do povo sem voz e sem vez, mas ficou abafado pelos fogos, pelas luzes, pelos grandes discursos. Ficou por ali, encolhido, com pouca representação. Nem sequer foi citado pelo locutor. Insignificante.

Zé da Silva desceu do palanque meio lá, meio cá. Tonto, no meio do povo. Venceu o empurra-empurra da massa, e parecia um folheto de campanha lançado ao vento. Me pegou pelo braço: - Tu me viu lá em cima, João; a gente chega lá, minino! Arrastou-me boteco adentro. Tinha o meu voto garantido.

JOCA DE OLIVEIRA

 

 

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