EU JOGUEI NO
VILA RICA
Joca de Oliveira
Eu joguei no time do Vila Rica Esporte Clube,
mais conhecido como o “Time da Matança”,
porque ficava estabelecido na Vila do Matadouro, em Ribeirão,
interior de Pernambuco. Meu pai não me queria ver jogando
bola e, principalmente, no time daquela vila. Achava bola coisa
de malandro e eu já havia quebrado o braço esquerdo,
numa pelada. Time de pelada não dava assistência
médica, dizia ele. E, além disso, achava o Matadouro
um local muito famoso, não pelo time de futebol, mas
pela violência. Tinha lá suas razões, mas
foi convencido pelo vereador, Manoelzinho, de que nada de ruim
aconteceria comigo.
– Não vai ter problema com Joca
lá, seu Zé! É que eu pretendo fazer um
time forte na vila e tou levando ele e Zé Rufino pra
reforçar a meia-cancha. O senhor sabe, né, a gente
ajuda o time e ganha uns votinhos dos torcedores.
Papai terminou se convencendo. Ruim foi convencer
dois titulares absolutos do time a cederem suas camisas para
dois novatos do centro da cidade. Me lembro de Deforeta, o meia-direita.
Foi depois de muita conversa, umas cachaças no boteco
e um dinheirinho extra, que ele aceitou a condição
de “bancário”. Assim eu soube, meses depois,
através de boatos. Sempre achei que eram boatos. De fato,
acho que o primeiro torneio do qual participamos influiu na
decisão. O Vila sempre ficava nas últimas colocações
em qualquer disputa, porém, nesse torneio, conseguimos
o vice-campeonato. O time havia evoluído com nossas presenças:
a minha e a do Zé, que era um meia-esquerda fantástico!
Teve até festa na vila, arranjada pela torcida feminina,
com bolo e tudo, e a presença do Prefeito. Era taça
de vice, mas era uma taça!
Eu havia sido rejeitado pelo Cosmos, o principal
time da cidade. Os dirigentes do Cosmos tinham razão.
Eu sempre chegava atrasado aos treinos e reinava mais no bar
do que no campo. Era muito jovem ainda. Acho que faltou uma
conversa, um chamado à responsabilidade. Naquela época,
o Cosmos começou a trazer jogadores de fora para fortalecer
a equipe: de Gameleira, do Cabo de Santo Agostinho, de Jaboatão,
etc. Essa prática se tornou uma constante, depois, em
outros times, o que desfavorecia os atletas da casa. Eram os
famosos “enxertos”. Manoelzinho, político
que era, tentou fazer um time forte somente com os meninos da
terra. Nessa contrapartida, ganhava prestígio ele, ganhava
prestigio o time. O resultado foi bom. Lembro de um excelente
goleiro que nós tínhamos: Inácio. A meia-cancha
era formada por Cilinho, João Boneco, eu e Zé
Rufino. O ataque: Zué e Bau Cangaia. Agora, da defesa,
essa eu não me lembro dos nomes dos jogadores. Peço
perdão. Sei que havia muitos chutões e “bumba-meu-boi”
pra tudo que é lado. Era uma tremenda correria, no começo.
Foi difícil cadenciar o jogo. Os bons resultados demoraram
um pouco, mas terminaram acontecendo.
O nosso campo era quase imprestável
para a prática do bom futebol. Dizem que continua assim.
A bola quicava muito e parecia uma bola de tênis gigante.
Era dura e difícil de dominar. Eu sempre arriscava muitos
chutes da intermediária, quando jogava em casa, pois
havia muitos montinhos artilheiros. Driblar, então, era
uma arte para poucos. Num jogo, se não me engano, contra
um time de Jaboatão, eu dei um chute do meio do campo.
Não foi um chute rasteiro, foi quase um bananão;
a bola tocou no terreno antes da pequena área e encobriu
o goleiro. Teria sido um gol insólito, mas o jogo terminou
mesmo zero a zero. Um dos muitos empates que o Vila obteve naquela
temporada. Empate com time bom era considerado como vitória
e sempre vinha acompanhado de muita farra. Os atletas, depois,
vinham nos deixar quase no centro: a mim e a Zé, pois,
passar pela ponte, na saída da vila, à noite,
sempre foi muito perigoso. Havia muitos assaltos por ali.
Jogamos algumas vezes fora do estado: somente
em Alagoas. Colônia Leopoldina, Flecheiras, pequenas cidades
ou localidades (engenhos, usinas) limítrofes ao estado
de Pernambuco. Íamos em ônibus alugados, sem nenhum
conforto. Ar condicionado, nem pensar. Cadeiras tipo “pé-duro”;
de encosto duro, na verdade. Eram ônibus que conduziam
feirantes. Chacoalhavam o tempo todo, porém a galhofa
e a bagunça que se fazia dentro dele amenizava o desconforto.
Fomos parados diversas vezes pela Polícia Rodoviária
Federal. Nossa torcida, que nos acompanhava nas viagens, aparentava,
exclusive as mulheres, um ar de delinqüência, mas
era boa gente. Os homens não largavam as facas-peixeiras
dos quartos. O costume de matar bois. Mal vestidos, muitos encachaçados
desde a noite anterior, três ou quatro assentados no assoalho
do ônibus jogando porrinha ou baralho apostando, com garrafas
de cana escondidas, pareciam adeptos de Antônio Conselheiro
sendo conduzidos para uma pequena batalha. Por milagre de Jesus,
nunca brigaram com torcidas adversárias nem ficamos presos.
Seu Gérson, nosso técnico e
responsável pela comitiva, era um homem disciplinador,
contudo, entendia seu povo e sabia dos limites de cada um. Quando
achava que a coisa estava saindo do alcance dele, mandava parar
a batucada e, às vezes, até o ônibus, para
uma repreensão. Depois do carão, o ônibus
seguia em silêncio, mas só por alguns minutos.
Sempre tinha um mais afoito que recomeçava levemente
as batidas da charanga. Meia hora depois, a bagunça na
traseira do veículo já estava novamente instalada.
Naqueles dias, corria uma lenda, entre as
torcidas dos outros times da cidade, que a apresentação
de uma garrafa de cana, na minha entrada em campo, tinha o poder
de me desconcentrar na partida. Seria o meu calcanhar de Aquiles,
minhas tranças de Sansão, a minha kriptonita branca.
Era meu time entrar em campo e a torcida adversária já
gritava:
– Joca, só tem a tua! –
E acenavam para mim com uma garrafa de aguardente!
Eu nunca liguei para torcidas adversárias.
A maioria era de amigos meus querendo tirar uma onda. Carregavam
um preconceito sobre o nosso time. Quase todos os jogadores
rivais, depois dos jogos, tomavam cachaça comigo. Entretanto,
só o Vila era considerado um time de pinguços!...
Pura maldade. Falavam assim do time porque vinha de um bairro
humilde, que tinha no matadouro público sua principal
fonte de renda. Bairro precário em tudo: escolas, postos
de saúde, postos policiais, saneamento básico,
enfim, necessitado de tudo o que uma comunidade precisa para
se evoluir com um mínimo de decência.
Apesar dos requisitos pouco recomendáveis,
foi por jogar no time de lá, que eu me apaixonei pelo
Vila e pelo bairro, e essa paixão mora em mim até
hoje. Eu adorava ganhar dos times considerados grandes, principalmente
de times com gente arrogante participando. Também, durante
algum tempo, guardei uma mágoa do Cosmos que me rejeitou.
Esse sentimento não existe mais. Como diziam meus companheiros
na época:
– Quem vive de passado é museu!
Esse passado, porém, me veio à
memória há poucos meses. Eu havia solicitado,
através de meu irmão, Luiz, uma camisa do Vila
atual, para guardar como lembrança. Em contato pela Internet
com Márton, Presidente atual do Vila, ele me prometeu
a “verdinha”. Soube através dele que o juvenil
do Vila participa de um torneio no Ibura, em Recife, e que o
time titular já esteve na 3ª divisão do Pernambucano.
O time, hoje, possui sede e e-mail próprios e, pelas
informações, está bem mais organizado do
que o nosso time do passado. O e-mail do clube dizia:
Vila Rica Esporte Clube, em 03/08/2006. “O
Vila jogará neste sábado no campo do Real, por
trás do muro do Aeroporto, no Ibura, entrada da Fábrica
da Frevo. Jogaremos às 9:00h da manhã. Quem sabe
nos veremos lá. Abraços....” vilaricaesporteclube@hotmail.com
Era Márton Ferreira, o Presidente do
Vila, que tentava um contato pessoal com o antigo jogador do
clube. Agradecendo ao convite, eu fui, no sábado, ao
campo do Real, com um amigo, porém não pude encontrar
Márton, que ficou em Ribeirão tratando de assuntos
pessoais e não pôde acompanhar a delegação.
Fiquei triste com a derrota do juvenil por três a zero
para um time de Moreno – PE e fiquei triste, também,
por não ter conhecido Márton. Fiquei bem mais
triste ainda, naquele dia, por não ter nenhuma condição
de entrar em campo e reverter aquele placar: nem atlética
nem de juventude. Tentei disfarçar do meu amigo Irapuan
a presente irritação de meus olhos marejados,
após o terceiro gol do time adversário. Me apertou
o coração ver meu time sendo derrotado de forma
inapelável, porém me sentia feliz por sabê-lo
vivo e participante.
Como diria um antigo escritor: “O passado
nunca passou”. O passado estava ali, naquela hora, disfarçado
em jovens atletas vestindo a camisa verde. O verde representativo
dos canaviais ribeirãoenses, o verde dos meus vinte anos
de vida, o verde do Vila Rica Esporte Clube, um time de peladas,
mas que marcou meu coração tanto quanto o Náutico
de Bita; o Botafogo de Garrincha e o Santos de Pelé:
meus times prediletos.
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