DARK
Quando chove torrencialmente em Recife quase não existe o passeio noturno dos travestis e prostitutas. Hoje, a noite permanecia estiada. O carro escuro com quatro rapazes desliza na avenida molhada e serpenteia, sai da Mascarenhas de Morais no sentido da Antônio Falcão, livra-se aqui e ali dos buracos da cidade; um pouquinho mais e quase beija a calçada. Um dos rapazes no carro aparece na janela com os dentes trincados e dispara alguns tiros, assustando os travestis. Os outros garotos gritam de forma medonha dentro do carro, depois gargalham de satisfação. Os travestis correm de sapatos na mão e um é atingido na perna. O carro escuro mergulha na noite e desaparece. Um pequeno riacho de sangue escorre na calçada e um táxi socorre a vítima. Bastam alguns quilômetros dali e os quatro rapazes chegam a um pequeno bar na beira-mar. Parecem guerreiros desgarrados de alguma aldeia bárbara: barulhentos, violentos, superiores. O som do carro, qualquer dia, como o revólver em poder deles, talvez possa estourar miolos.
A chuva volta a cair torrencialmente nas ruas de Recife. A noite completamente dark.
Joca de Oliveira |