CULT MOVIE

Desde criança que “Seu” Alfredo era cinéfilo. Colecionava sinopses de filmes, recortes de jornais, críticas, fotos, pedaços de fitas. Visitava constantemente a casinha de projeção do CINE ART, cinema do seu bairro, à cata de fotos de Ava Gardner e Ingrid Bergman. Cresceu amando a Sétima Arte, porém, nunca chegou nem perto de uma filmagem. Tímido demais. Poderia ter se aventurado com seus companheiros de adolescência e tentado uns “curtas”. Nem isso. Era isolado demais. Guardou tudo em um baú, quando casou. No seu bairro, todavia, a sua fama de conhecedor de filmes, diretores e atores era conhecida. Seu filho, Jânio, queria que ele participasse de um concurso da NET: Elaborar um roteiro de um filme. Concorrer a uma viagem para Hollywood. Enfim, revelar seu vasto conhecimento sobre o mundo cinematográfico. Não quis. Não estava mais na idade para esse tipo de sonho.
Um belo dia, Jânio chegou em casa um pouco mais tarde. Havia ido ao Teatro do Parque, após as aulas, onde, junto com seus companheiros, assistiram BAGDAD CAFÉ. Seu pai estava só, na sala, em frente à televisão. Som baixo. Na penumbra, o velho quase cochilava. A curiosidade de Jânio não sabia esperar:
– Papai, o que é um filme Cult?
– Que é isso, Jânio, endoidou? – “Seu” Alfredo teve um pequeno sobressalto.
– Desculpe-me, pai, é que esse negócio de Cult Movies me deixou encabulado. Na verdade, o senhor sabe mais do que eu, Fernando e...
– Jânio, meu filho, deixe essas besteiras pra lá. Isso é coisa de crítico de cinema. Arranjam expressões estrangeiras para uma demonstração de intelectualidade... Quando o filme é diferente de tudo aquilo que eles viram... CULT MOVIES?... Uma linguagem nova, não sei. Talvez uma forma nova de se fazer cinema, ou uma nova técnica apresentada por um diretor num filme. Ou, ainda, quando o filme é um marco, um divisor de águas. Vi, uma vez, uma relação de filmes desse tipo, selecionados por uma revista de cinema. Não detectei o porquê: BLADE RUNNER, O Caçador de Andróides, os BRUTOS TAMBÉM AMAM e CASABLANCA (estes, quem sabe, pelos finais antológicos?); e mais, CIDADÃO KANE, GILDA, BRAZIL, O FILME, SEM DESTINO, TWIN PEAKS, etc... Bote na cabeça uma coisa, Jânio, cinema é diversão, é entretenimento. Seja simples. Se o filme te faz rir, ria. Se te faz chorar, chore. Use o sentimento. Não vá à busca de explicar filmes complicados. Cada pessoa tem uma interpretação pessoal. Tenha a sua. Guarde-a para si. Evite Godard. Se tiver paciência para assistir Bertolucci e Antonioni até o fim, vá. Acho melhor, na sua idade, curtir as aventuras de Spielberg. Tem mais futuro – Dissertou “Seu” Alfredo.
Jânio não pareceu decepcionado. Gostava de ouvir o seu pai falando de cinema,
Mesmo quando não respondia a contento. Pegou seus livros, que havia jogado no sofá, e se dirigiu ao seu quarto. Tendo passado dez minutos trancado lá dentro, voltou à sala. Seu pai já assistia ao programa de Jô. Jânio, ainda confuso com a reflexão que seu pai fizera sobre cinema, e com a cuca cheia de expressões como Nouvelle Vague, Cinema Novo, Filme-Cabeça, atacou “Seu” Alfredo, novamente:
– Pai... Pai... O que é um filme Noir?


JOCA DE OLIVEIRA
(inspirado num conto de Fernando Sabino)

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